O primeiro fim na carreira de Michael Jordan

Por Vinícius Sayão

No dia 6 de outubro de 1993, um dos maiores ícones do esporte mundial surpreendeu o mundo. Michael Jordan havia anunciado sua aposentadoria. Logo depois de vencer três títulos seguidos, três MVPs (Most Valuable Player) da Finais e de conquistar o ouro olímpico com o Dream Team. Há um mês do início da temporada 1993-94 da NBA, Jordan simplesmente afirmou ter perdido a vontade jogar basquete. Mas será que apenas a falta de vontade o fez abandonar o esporte no qual era tão dominante?

Michael e James Jordan após título do Bulls de 1991 (Foto: Andrew D. Bernstein)

James Jordan, o pai de Michael, foi assassinado em julho de 1993. Ao estacionar o carro no acostamento de uma rodovia, James foi morto por dois adolescentes com um tiro à queima-roupa. Seu corpo foi encontrado boiando em um remoto riacho na Carolina do Sul e dez dias depois foi identificado como o pai da estrela do Chicago Bulls. O carro, um Lexus SC400 dado pelo filho, foi levado pelos assassinos.

Michael e James possuíam uma relação muito próxima, pai e filho eram praticamente melhores amigos. Segundo Sam Smith, então repórter do jornal Chicago Tribune e autor do livro Jordan Rules: “eles eram iguais, Michael era mais próximo do pai do que de qualquer outra pessoa”. Uma das marcas registradas de Mike, a língua pra fora da boca ao finalizar alguma jogada, foi copiada de James, que costumava colocar a língua pra fora quando estava concentrado em seu trabalho.

MJ costumava apostar em jogos de golf e na época do latrocínio questionaram se tais apostas haviam influenciado na morte do pai. No ano anterior foi revelado que, em 1989, Jordan fez um cheque no valor de 57 mil dólares destinado a um condenado por tráfico de drogas, dinheiro devido por derrotas jogando golf. Além disso, no livro Michael & Me: Our Gambling Addiction, My Cry For Help, o autor do livro e empresário Richard Esquinas afirmou que a dívida de Mike com ele chegou a 1,25 milhão de dólares em apenas 10 dias. Ao que Jordan replicou dizendo que apostava, mas que os valores reportados eram exagerados. A repercussão das apostas levou a NBA a investigar a regularidade delas.

Essa crescente e negativa exposição devia incomodar muito alguém que sempre tentava parecer impecável em público. Alguém que chegou a dizer para seu biógrafo, Bob Greene, que ‘’quando passo por uma multidão de fãs e jornalistas, mesmo que eu não esteja olhando para as pessoas, eu posso sentir cada um me encarando. E é uma sensação ardente. Sinto isso até estar sozinho novamente’’. Mike também dizia para Greene que as duas horas e meia de um jogo de basquete são as mais serenas. Para ele, havia paredes invisíveis separando a quadra da multidão, ninguém poderia tocá-lo.

Dois dias após o anúncio da aposentadoria em outubro, o então comissário da NBA, David Stern, anunciou o resultado da investigação de quatro meses a respeito das apostas de Jordan. Michael não havia violado as regras da Liga. Além disso, as apostas não tinham relação com o homicídio do pai. O crime foi cometido pelos adolescentes sem que estes soubessem quem estavam matando e roubando. Mas era tarde demais, MJ já estava decidido a se aposentar. É provável que o desgaste causado pela exposição das apostas e morte de seu pai, tenham-no feito perder a vontade de jogar.

A mudança para o baseball
No ano seguinte, em março de 1994, Michael Jordan assinou contrato com o Chicago White Sox, time da Major League Baseball, cujo dono era o mesmo do Chicago Bulls. O motivo da troca de esporte? Era o sonho de James Jordan. Michael diz que o baseball foi a melhor coisa que aconteceu em sua vida: ‘’eu reecontrei meu pai’’.

Michael integrou a equipe principal do White Sox durante os treinos de primavera, mas atuou mesmo na Double-A, o segundo nível mais elevado da Minor League Baseball (MiLB), pelo Birmingham Barons. A MiLB faz parte da hierarquia do baseball estadunidense, lá a competição é em nível abaixo da Major League e serve para desenvolvimento e preparação de jogadores para a liga principal.

(Foto: Getty Images)

Pelo Barons, Michael jogou a temporada 94 e teve .202 de acerto como rebatedor (cerca de duas rebatidas certas a cada dez bolas lançadas), três home runs, 51 walks e 30 roubadas de base. Desempenho ruim, se comparado a um jogador profissional de baseball. Porém MJ estava com 31 anos de idade e não jogava ou treinava regularmente desde o colegial. Ter saído do basquete e conseguido resultados medianos em nível profissional em um outro esporte é, sem dúvida, um dos maiores feitos do jogador.

“I’m back”
Foi com essas palavras que já em março de 1995 Michael Jordan anunciou seu retorno à NBA, pouco mais de um mês antes do início dos Playoffs da temporada 1994-95. Não voltou ao Bulls usando a camisa 23, e sim, a 45, seu número usado no baseball no colegial e profissional. Na reestreia contra o Indiana Pacers, Jordan marcou 19 pontos, entretanto com baixo aproveitamento nos arremessos de quadra, 25% (7-28).

Jogou 17 jogos até o fim da temporada regular, a qual terminou com média de quase 27 pontos por jogo e apenas 41% de aproveitamento nos arremessos. Com o retorno do astro, o Bulls chegou à segunda rodada da conferência Leste, mas perdeu pro Orlando Magic de Shaquille O’Neal e Penny Hardaway por 4 a 2.

Já na temporada seguinte, o time de Chicago conseguiu o melhor desempenho da história da NBA na temporada regular, com 72 vitórias e apenas 10 derrotas. Em 16 de junho de 1996, Jordan conquistava seu 4º título, o primeiro sem seu pai ao lado. O título veio justamente no dia dos pais: ‘’foi a primeira vez que me dei conta que ele não estava lá’’, diz Michael. Algo muito emotivo para o jogador e que rendeu uma das cenas mais marcantes da história do esporte: Jordan estirado no vestiário chorando com a bola do jogo nas mãos (imagem abaixo).

(Foto: Getty Images)

O jogador voltou a se aposentar ao final da temporada 1997-98, mas retomou a carreira, dessa vez sem nenhum outro esporte no meio do caminho, em 2001-02, atuando pelo Washington Wizards. Jordan abandonou de vez as quadras em 2003, com 6 anéis de campeão e médias por jogo de 31,1 pontos, 5,3 assistências e 6,2 rebotes.

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