Verônica, uma promessa brasileira nas Paraolimpíadas

Por Natália Belizario

(Foto: Arquivo pessoal)

(Foto: Arquivo pessoal)

Quem vê as vitórias de Verônica Hipólito nas pistas de corrida nem imagina o que a atleta tem superado para alcançar seus resultados. Com 12 anos, Verônica descobriu um tumor no cérebro após exames de rotina e foi submetida a uma cirurgia de emergência bem-sucedida. Aos 15, sofreu um AVC que comprometeu os movimentos do lado direito de seu corpo. Atualmente, a atleta de 19 anos lida com o retorno do tumor. Verônica não desistiu de lutar pelos seus objetivos, mas nem sempre foi fácil vencer as dificuldades impostas por sua saúde.

“Eu achava que era ruim tudo o que eu fazia. Eu não gostava de sair de casa por ter um pouco de vergonha, após o AVC e não conseguir andar ou falar direito.” – O esporte foi a maneira que Verônica e sua família encontraram para superar suas limitações. Com exercícios físicos, ela voltou a andar depois do AVC e recuperou sua autoestima. Em 2012, se classificou para competições paraolímpicas nas categorias F38 e T38 e já no ano seguinte bateu o recorde mundial dos 200m rasos.

Recentemente, em agosto de 2015, Verônica passou por um procedimento cirúrgico para retirar pólipos do seu intestino, que comprometiam a sua condição física. Por conta da operação, ela não participou do Mundial Paralímpico de Atletismo, que aconteceu no Catar em outubro de 2015. Mas, apesar do obstáculo no percurso, a atleta já está de volta a sua rotina de treinos e é uma das grandes promessas nos Jogos Paralímpicos de 2016.  

Verônica nos Jogos Parapan-Americanos 2015, sediado em Toronto. O desempenho do Brasil nessa edição dos jogos é considerado o melhor da história (Foto: Arquivo pessoal)

Verônica nos Jogos Parapan-Americanos 2015, sediado em Toronto. O desempenho do Brasil nessa edição dos jogos é considerado o melhor da história (Foto: Arquivo pessoal)

Em entrevista, Verônica contou mais sobre suas expectativas para os Jogos que se aproximam, sua rotina de treino e o impacto do esporte na vida das pessoas:

Arquibancada: A sua visibilidade como atleta vem aumentando cada vez mais. Qual é a principal mensagem que você tenta passar para o público?
Verônica Hipólito: São tantas (risos). A primeira, tão simples que até eu não acreditaria um tempo atrás, é que tudo é uma meta. Seu sonho é uma meta. Então, não adianta achar que vai cair do céu. Não adianta, seja você de qualquer religião, achar que o seu (ou os seus) Deus (es) vão te dar algo, porque nada vai no colo. Tudo é batalhado e conquistado. E você tem que fazer isso sempre com honestidade e humildade. E a segunda, é a mudança de percepção das pessoas sobre o deficiente. Nós somos os que estão fora da linha da normalidade (considerando normal enxergar, escutar, não ter partes do corpo amputadas e andar e falar minimamente bem). As pessoas muitas vezes nos veem como incapazes, e quando mostramos que somos capazes ainda preferem ver as deficiências do que as marcas. Muitas pessoas ainda acham que não existe o esporte de alto rendimento paralímpico, acham que isso só existe no Olímpico.

A: Qual é a importância do esporte na sua vida fora das pistas de corrida?
VH: Inicialmente foi a saúde e a autoestima. Eu achava que era ruim tudo o que eu fazia, não conseguia olhar diretamente para as pessoas, não gostava de sair de casa por ter um pouco de vergonha, pós AVC, e não conseguir andar ou falar direito. O esporte, inicialmente como reabilitação, que me fez andar novamente, que me fez conhecer novas pessoas e interagir com elas, que me fez perceber que nada vem fácil, e que, na verdade, eu não sou ruim. Conheci novos países, recebi propostas que achei que nunca [receberia], conheci pessoas incríveis que hoje são grandes amigos, e consegui dar uma vida melhor para a minha família. Meus pais são absurdamente importantes para mim, então eu sempre tento dar o melhor para eles. O sonho do meu pai, por exemplo, é ir assistir à queima de fogos em uma praia no Rio de Janeiro ou Florianópolis. Ele já conheceu o Rio (por causa das condições de vida que o esporte me proporcionou) e esse ano, se tudo der certo, ele vai assistir à queima de fogos em Florianópolis (risos).

A: Sendo o Brasil sede dos Jogos Paraolímpicos em 2016, você acredita que o esporte paraolímpico ganhará um alcance maior no país?
VH: Eu espero. Existe pouca divulgação do esporte paralímpico no Brasil, e os Jogos aqui serão de uma importância enorme para pararmos com isso. Mas isso tem que ser antes (de preferência, já) dos Jogos e não só depois. Precisamos da torcida, muitos precisam de patrocínios e, na minha opinião, isso pode revelar novos atletas. Vai ser a geração pós Rio.

A: Você compete na categoria T38 na paraolimpíada. Como é feita a seleção para essa categoria?
VH: Existem diversas classes no paralímpico, que dividem as pessoas por deficiências/patologias iguais ou aproximadas. No atletismo tem o T de Track (pista , todas as provas de corrida) e o F de field (provas de campo, como lançamentos, arremessos e saltos). Temos a classificação nacional e a internacional. Então, minimamente você fará a classificação duas vezes. Na classificação nacional, são só classificadores do seu país. Na internacional, são aqueles que fizeram o curso pelo comitê paralímpico internacional (IPC) e, então, não trabalham para o comitê nacional. São de dois a três classificadores (médicos ou fisioterapeutas que tiveram que passar por um curso) e tem uma série de exames na hora: temos que levar laudo do nosso médico (comprovando e atestando nossa deficiência) e outros exames (no meu caso, tenho que levar a tomografia da época do AVC, e eletroneuromiografias, que comprovam a minha hemiparesia). A minha classe só tem pessoas com paralisias leves, acusadas por paralisia cerebral, AVC ou TCE. Eu diria que minha classe é uma das mais complicadas de classificar, porque é muito relativo essa coisa de ser “leve” ou “‘menos leve que”.

A: Como tem sido a rotina de preparação para a competição que se aproxima?
VH: Eu tive alguns problemas entre o final do ano passado e o início desse ano. Tive que operar, ficar um bom tempo parada, depois voltei a treinar, parei de novo por causa de uma possível nova cirurgia, e agora voltei de vez a treinar, espero (risos). Mas, o plano inicial é começar a treinar mais em tartan (material oficial das pistas). É um pouco complicado, minha preparação tem que ser adaptada, afinal, todos sabem que tive muitos problemas de saúde. Assim como todos sabem que sou absurdamente competitiva e ansiosa, então, também vou na psicóloga para aprender a transformar isso em coisas positivas.

A: Quais são as suas expectativas para dos Jogos?
VH: Eu estou bem animada (risos). É algo que parece muito distante e muito próximo ao mesmo tempo. Essa semana eu conversava com um amigo da seleção, até que ele virou para mim e disse “Ei, pense, se nossa prova fosse amanhã, como você estaria?” e ficamos muito animados. Serão os meus primeiros Jogos, quero que seja incrível, quero entrar na pista sabendo que darei o meu melhor, e sair dela sabendo que dei o meu melhor.

A: No Prêmio Brasil Olímpico, o tricampeão de tênis Gustavo Kuerten falou de maneira emocionada sobre a importância do esporte. Uma das frases marcantes do atleta foi “em um momento tão carente de ídolos no Brasil, eu trabalharia para que as crianças se inspirassem nos esportistas”. Na sua opinião, como o esporte paraolímpico pode inspirar as pessoas?
VH: O esporte paralímpico tem dois lados: o lado do alto rendimento e o lado da superação da deficiência. Imagine uma criança, vendo pessoas fazerem coisas incríveis, como correrem os 100m em 10 segundos, ou saltarem mais do que 8m? Pessoas em cadeiras de rodas jogando basquete, rugby, tênis. Eu realmente acho que vai despertar a curiosidade delas vendo pessoas “diferentes” fazendo coisas incríveis. E também, isso pode ajudar muitas pessoas com deficiência, seja lá qual for, a se aceitarem mais, afinal “se eles podem, eu também posso”, não?

A: Você, sem dúvida alguma, já inspirou muitas pessoas. Mas e as suas inspirações para o esporte e para a vida, quem são?
VH: Meus pais. Eles são meus principais exemplos, porque eles sempre me ensinaram três coisas: sempre dê o seu melhor, nunca deixe que as pessoas te limitem e que o amor salva muito mais do que qualquer um pensa. E foram justamente essas coisas que me fizeram estar onde estou hoje. Não deixei que as pessoas dissessem o que era ou não impossível para mim, só eu digo o que é impossível para mim, e eu digo que não será nada que eu não me esforce por isso. Dou o meu melhor em cada coisa que eu faço, nos treinos, nas cirurgias, na minha reabilitação, e na minha convivência com todo mundo. E sempre mostro o amor que sinto pelos outros. Várias vezes o amor me salvou, e acredito que eu amando possa ter salvo outras pessoas.

E, também… três grandes amigos e exemplos para mim, no esporte: Yohansson Nascimento, Daniel Mendes e Heitor Sales. Eles me ensinaram e me ensinam muito no esporte, são incríveis. Yohansson sempre tira um truque da cartola. Quando ninguém acha que ele vai ganhar, ele faz a melhor marca da carreira. O Daniel Mendes é o cego mais rápido nos 400m rasos, único a correr abaixo dos 50s. E o Heitor é guia do Daniel, que faz coisas incríveis pelos outros. Ele treina, estuda o treino que está sendo passado, quer entender o que está acontecendo e sempre cobra o melhor dentro da real condição do momento.

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