O caminho para Eldorado

Por Jasmine Olga

Delegação brasileira durante as Paralímpiadas de Londres 2012 (Foto: Divulgação)

Delegação brasileira durante as Paralímpiadas de Londres 2012 (Foto: Divulgação)

179 atletas, 18 modalidades, 21 medalhas de ouro, 14 medalhas de prata, 8 medalhas de bronze e a 7ª colocação na classificação geral. Os números que contam a história da campanha brasileira em Londres 2012 não foram mero acaso e inesperados. Seguindo uma meta estabelecida pelo comitê em 2010, quando os bons resultados obtidos nos jogos de Pequim chamaram a atenção de todos, a delegação brasileira mostrou ao mundo do que era capaz. Somando resultados espetaculares nos recentes jogos parapan americanos, as expectativas só crescem.

A presença em 18 das 22 modalidades paralímpicas em 2012 foi fruto de uma lenta evolução que o paradesporto sofreu no Brasil. Introduzido no país com a prática do basquete em cadeira de rodas em 1958, a primeira participação paralímpica brasileira só ocorreu na quinta edição dos jogos, em 1976 e não resultou em nenhuma medalha. Os resultados demoraram a aparecer. A primeira medalha só veio em 1976 nos Jogos de Toronto com a prata da dupla Robson Almeida e Luiz Carlos Costa no Lawn Bowls, esporte semelhante a bocha. Os primeiros resultados dourados ainda levaram dois ciclos olímpicos para serem conquistados e vieram na forma de sete medalhas de ouro em 1984, nos Estados Unidos. Todas as conquistas vieram do Atletismo com Márcia Malsar nos 200m rasos/classe C6, Amintas Piedade e  Luiz Cláudio Pereira no Aremesso de peso e lançamento de dardo/classe 1C, categoria feminina e masculina respectivamente, e Miracema Ferraz no arremesso de peso/classe 1A.

Fundado em 1995, o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) buscou centralizar todas as entidades independentes de paradesportos e conseguiu assim traçar um plano estratégico para o desenvolvimento da categoria. Os retrospectos das paralímpiadas de Sidney já mostraram os resultados que a centralização administrativa trouxe ao país: o Brasil saltou da 34º colocação obtida em Atlanta para a 24º colocação em Sidney em 2000. Embora a centralização administrativa tenha sido determinante, a grande virada de jogo veio com a sansão da Lei Agnelo/Piva em 2001. A partir de então 2% dos lucros de todas as loterias federais  deveriam ser destinadas ao Comitês Olímpicos e Paralímpico, sendo 15% dessa renda destinada ao CPB.

Com um investimento maior por parte do governo, o comitê passou a desenvolver políticas transparentes de desenvolvimento esportivo. Com um investimento em estrutura de base, a identificação de talentos e a introdução dos atletas em treinamentos de alto rendimento prepara os atletas do amanhã, para isso conta com projetos como o Clube Escola Paralímpico. Escolas de todas as regiões do país desenvolvem projetos de desenvolvimento de modalidades paralímpicas que tem o seu custo totalmente coberto pelo CPB. O projeto não só permite ao estudante com deficiência a prática esportiva e um possível caminho no alto rendimento, mas atua na inclusão social do aluno com deficiência.

Ao mesmo tempo que passou a disseminar a prática dos 22 esportes que compõe o quadro dos jogos paralímpicos, com cinco deles sendo diretamente administrado pelo comitê,  os olhos se viraram para os principais atletas das modalidades, alcançando excelência no treinamento de alto nível para que possam competir sempre pelo principal lugar no pódio. Os bons resultados alcançados não foram tudo, a meta continua sendo aumentar o número de atletas interessados no esporte de alto rendimento, mas a curto prazo as projeções continuam otimistas. Diversos atletas da chamada “Geração Pós-2012” já conquistaram medalhas em campeonatos mundiais neste ciclo e juntarão forças com os atletas já estabelecidos para uma tentativa de se fazer história. Nomes consagrados como Alan Fonteles, Terezinha Guilhermina, Daniel Dias, Lucas Prado e Yohansson Nascimento não estarão ativos por muito mais tempo e atletas como Talisson Glock, Verônica Hipólito, Lorena Spoladore, Susana Schnardorf e Natália Mayara estarão prontos para seguir mudando a história do país. O Comitê pretende alcançar o TOP 5 no Rio 2016 com uma delegação mista.

Daniel Dias, detentor do recorde mundial nas provas de 149m e 200m livre, 100m costa e 200m medley, ganhador de quinze medalhas olímpicas e três prêmio Laureus de melhor atleta paralímpico (Foto: Divulgação)

Daniel Dias, detentor do recorde mundial nas provas de 149m e 200m livre, 100m costa e 200m medley, ganhador de quinze medalhas olímpicas e três prêmio Laureus de melhor atleta paralímpico (Foto: Divulgação)

Segundo a professora Elisabeth de Mattos da Escola de Educação Física e Esporte da USP, especialista em natação adaptada, o Brasil tem total condições de alcançar as metas estabelecidas. A formação adequada de profissionais aptos a trabalharem com paradesportos também contribui para os bons resultados. “Os cursos de graduação tem ao menos uma disciplina obrigatória que aborda o tema. Temos também cursos de especialização que aprofundam algumas áreas e atualmente o CPB promove cursos de capacitação de técnicos, árbitros e classificadores.”

A dificuldade de investimento em estrutura não foi o único obstáculo enfrentado pelos atletas. O paradesporto sempre carregou um estigma de amadorismo que não poderia ser mais incorreto. Em vista disso, o Comitê passou a comprar os direitos de exibição dos jogos e sublicenciar para grandes canais de TV. Segundo o CPB, essa exposição em grandes veículos aliado aos bons resultados atraem o torcedor, que se interessa cada vez pelas personalidades paralímpicas. O crescente número de atletas em campanhas publicitárias mostra uma proximidade maior entre o público e novas caras do esporte. “Acredito que a cultura brasileira já está pegando o costume de acompanhar nossos atletas paralímpicos. Os jogos de Londres ajudaram muito a expor a imagem do paradesporto. Lá, tivemos, por exemplo, mais de 80 mil pessoas dentro de um estádio para assistir a final dos 200m T44, prova na qual o nosso Alan Fonteles venceu Oscar Pistorius” diz um porta-voz do Comitê Paralímpico Brasileiro.

Natália chegou a praticar natação durante certo tempo, mas optou por dedicar-se exclusivamente ao tênis em 2007 (Foto: Divulgação)

Natália chegou a praticar natação durante certo tempo, mas optou por dedicar-se exclusivamente ao tênis em 2007 (Foto: Divulgação)

Eu acredito que houve uma evolução muito grande quanto ao apoio para nós atletas paralímpicos atualmente, porém ainda acho que podemos conseguir mais através da divulgação da mídia, podendo assim mostrar que lutamos  pelos nossos objetivos com o mesmo potencial de um atleta olímpico”. Natália Mayara, tenista de 22 anos e ganhadora de duas medalhas de ouro na última edição dos Jogos ParaPan americanos, é uma das estrelas da nova geração de atletas que conseguem se destacar em resultados e atrair a atenção da mídia. Após sua campanha nos jogos em Toronto, Natália possui grandes planos para os Jogos do Rio de Janeiro. “No Parapan foram dias únicos que vivi e que estão marcados na minha história. Posso afirmar que nos Jogos ParaPan estava jogando o meu melhor tênis,  foi o momento mais importante da minha carreira, e a realização de um dos meus sonhos. Ganhar duas medalhas de ouro me trouxe mais alto confiança e  mostrou ainda mais de que sou capaz me dando força, foco para continuar e conquistar o maior dos meus objetivos que é uma medalha nos Jogos Paralímpicos. As expectativas é de conseguir um pódio,  quero chegar cem porcento tendo a certeza que fiz o meu máximo independente do resultado que venha”, conta a atleta para o Arquibancada.

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