Olhos de águia pela Europa

Por Jasmine Olga

Lance polêmico durante jogo da Eurocopa 2012

Lance polêmico durante jogo da Eurocopa 2012 (Imagem: Getty Images)

Eurocopa 2012, Donetsk, Ucrânia. Joe Hart, goleiro da seleção inglesa, fez o possível, mas o chute de Marko Devic, meia-atacante ucraniano, não foi desviado totalmente. A defesa malfeita espirrou a bola em direção ao gol e, em cima da linha, John Terry impediu que Hart se tornasse o vilão do dia e enterrou as esperanças que o time co-anfitrião tinha de se classificar pa

ra a segunda fase da competição. O lance, ainda lembrado e revisitado anos após o ocorrido, não parecia passar de uma simples “defesa” difícil. Longe do estádio, porém, as imagens de TV contavam uma história diferente. Terry tirou a bola quando ela já tinha passado da linha. Foi gol da Ucrânia.

Os ucranianos não foram os primeiros a sofrer com um lance assim. É uma ocorrência frequente, que teve o seu primeiro caso de ampla repercussão durante a Copa do Mundo de 1966. Wembley testemunhou um de seus momentos mais emblemáticos. Na final da competição, Inglaterra e Alemanha Ocidental se enfrentaram em um jogo emocionante. Com o resultado parcial de 2-1, parecia que a seleção da casa já estava com a mão na taça ao final do segundo tempo, mas uma série de eventos adiaram a comemoração britânica . Com um minuto para o fim do jogo no tempo regulamentar, a Alemanha empata o jogo em um lance de bola parada. 2-2. O que parece ser o ponto de virada do jogo logo se torna um mero detalhe. Com dez minutos jogados da prorrogação, Geoff Hurst muda a história do jogo com uma bola que bate na trave a aparenta entrar no gol. Lance legal segundo o árbitro e a Inglaterra se consagrou campeã mundial com um placar de 4-2 ao fim do jogo.

Aliada em tantos aspectos da evolução do esporte, a imagem de TV se tornou um grande inimigo da arbitragem com a era de ouro dos replays, tira-teimas e especialistas de arbitragem. Todo lance é visto e julgado por milhões de pessoas, tornando os erros e marcações duvidosas objetos de discussões intermináveis, mas nem isso foi suficiente para que houvesse um consenso referente ao uso de tecnologias no futebol. Com o apelo da tradição e do medo que a tecnologia interferisse na dinâmica de jogo, o futebol foi na contramão de esportes como tênis, críquete e vôlei que incorporaram o uso da imagem sem prejuízo na dinâmica de jogo. Michel Platini, então presidente da Federação Europeia, chegou a afirmar em 2012 que qualquer árbitro de linha com bons óculos tem totais condições de determinar a legalidade de um gol. Muitas vezes utilizando o discurso econômico como argumento, Platini não via justificativa em desembolsar uma alta quantia para a ocorrência de dois ou três lances por ano. Seu posicionamento foi em desencontro do posicionamento oficial da FIFA, órgão máximo do esporte. Após o jogo entre Inglaterra e Ucrânia, Joseph Blatter chegou a declarar que a introdução da tecnologia da linha do gol não era mais mero capricho e sim uma necessidade. Hora de evoluir.

Com carta branca do órgão máximo do esporte, diversos sistemas passaram a ser testados pelo IFAB (International Football Association Board), e foram usados pelo menos dois modelos ainda em 2012, durante a Copa do Mundo de Clubes no Japão. A tecnologia GoalRef e o sistema hawk-eye foram utilizados pela primeira vez, mas nenhuma decisão unânime foi tomada. A FIFA delegou a responsabilidade para as confederações nacionais, se isentando de qualquer polêmica. No âmbito das ligas domésticas, a mudança foi gradual e mais uma vez dirigentes utilizaram argumentos econômicos para justificar a sua não implantação. Na Bundesliga, por exemplo, o custo seria repassado aos clubes que se negaram a pagar um valor tão alto por uma tecnologia que seria utilizada pouco jogos da temporada. No entanto, em 2013, a federação inglesa anunciou a implantação do sistema Hawk-eye nos jogos da Premier League e FA Cup, abrindo caminho para que em 2015, após o uso na Copa do Mundo FIFA de 2014, a Bundesliga voltasse atrás em sua decisão de não introduzir a tecnologia.

A relação da UEFA parece ter mudado com relação ao uso de tecnologia. Em 2016, não só anunciou que irá utilizar a tecnologia da linha do gol pela primeira vez durante a Eurocopa que ocorre na França, mas também irá introduzir a tecnologia na Liga dos Campeões, o maior campeonato interclubes do mundo. A partir das fases do matamata, todos os estádios deverão estar equipados e preparados para receber os jogos. A tendência parece ser mundial. O uso da tecnologia deixou de ser desconhecido do público. Em uso também nas comemorações da Copa América Centenário,a tecnologia prova não ser um empecilho para a dinâmica de jogo, preocupação frequente das emissoras responsáveis pela transmissão dos jogos. Ainda em forma experimental, o IFAB já testa o uso de vídeo-árbitros, que auxiliariam na tomada de decisões em lances de falta e pênalti e esbarra justamente na quebra de ritmo de jogo.

Lance da Copa de 1966. A história poderia ter tido outro campeão. (Reprodução/Google)

Lance da Copa de 1966. A história poderia ter tido outro campeão. (Reprodução/Google)

Sistema Hawk-eye

Uma das muitas tecnologias testadas pelo IFAB, o sistema Hawk-eye se firmou como um dos mais comuns e precisos no mundo esportivo. Adaptado para cada esporte, no futebol o sistema é composto por sete câmeras de alta definição que ao seguirem o trajeto da bola fazem a triangulação da imagem e geram uma base de dados. O cruzamento entre os dados coletados pela trajetória da bola e pela dimensão do campo determina quase que com perfeição a legalidade dos lances, notificando o árbitro da partida por meio de um sistema de vibração em seu relógio em até meio segundo, dando tempo hábil para a tomada de decisão que deve ocorrer em até 5 segundos

O uso mais frequente da tecnologia ainda não a transforma em unanimidade. No futebol, muitos criticam a falta do “fator humano’’ na tomada de decisões. A FIFA nega e descarta a possibilidade da retirada dos árbitros que se localizam próximos da linha do gol nos campeonatos europeus, destacando a importância da tecnologia somente para corrigir eventuais erros e evitar situações que mudem drasticamente o resultado de uma partida, evitando casos como o ocorrido na Eurocopa de 2012.

Rafael Lino, representante da federação paulista de voleibol, conta um pouco sobre as particularidades do uso da tecnologia no vôlei. “Inicialmente tentou-se utilizar um aparelho dentro da bola que encaminhava os dados assim que a bola tocasse o chão. Logo se verificou que não era tão eficiente já que o aparelho que iria dentro da bola se destruía após alguns ataques realizados e as câmeras não conseguiam definir com precisão o local em que a bola tocava, em razão do ‘achatamento’ causado pelo impacto com o solo, interferindo no resultado da chamada de bola dentro ou fora.” Utilizado nos jogos do Campeonato Paulista de Vôlei desde 2010, o hawk-eye e o vídeo-checking, sistema de análise de imagens de lances, não mudaram o jogo, somente influenciaram em resultados mais democráticos.

“Atualmente, atletas de todos os esportes estão em constante evolução física e técnica, exigindo cada vez mais dos árbitros que estão cada vez mais expostos ao erro, apontando consequentemente, para a necessidade de utilização de recursos tecnológicos para se evitar um desequilíbrio em suas decisões. O árbitro é humano e comete falhas.” Mostrando estar entrando em sintonia com a evolução técnica de outras vertentes do esporte, a tecnologia está finalmente se firmando no esporte e garantindo a sua longevidade.

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