Parabadminton: esperança olímpica para 2020

Por Luis Eduardo Nogueira

Apesar de ser uma modalidade com pouca visibilidade no Brasil, o parabadminton vem conquistando cada vez mais seu espaço no cenário esportivo. Atualmente, 47 países são filiados à Associação Internacional de Badminton para Deficientes (IBAD), parte da Federeação Mundial de Badminton, sendo que há países de todos os continentes.

A Federação Mundial de Badminton já promoveu 10 campeonatos mundiais desde o primeiro, em 1997, que se realizam a cada dois anos. Destes, o Brasil participou dos 3 últimos, conquistando um feito inédito no mundial de 2015 em Stoke Mandeville, Inglaterra: Cintya de Oliveira conquistou o bronze em sua categoria, primeira medalha brasileira em mundiais.

O parabadminton é dividido em duas grandes categorias: Andantes (Standing) e Cadeirantes (Wheelchair). Na de cadeirantes, há a WH1 e WH2, sendo a primeira para cadeirantes com equilíbrio corporal moderado ou ruim, enquanto a segunda para os com melhor equilíbrio; em ambas há uma diminuição no tamanho da quadra. Na categoria Standing, há 4 subcategorias – A SL3 e SL4 são para atletas com deficiências predominantes nos membros inferiores, com a diferença de que na primeira há adaptação do tamanho da quadra devido a um grau maior de deficiência física. Na categoria SU5, participam atletas com deficiência nos membros superiores, e na SS6, os que apresentam baixa estatura (masculino até 1,45 e feminino até 1,37); em nenhum dos casos há adaptações da quadra.

No Brasil, os atletas de parabadminton sofrem muito com a falta de investimento no esporte, dependendo muito de patrocínios, já que o incentivo do governo é baixo. A entrevista com o atleta Gabriel Jannini mostra melhor o que é praticar o esporte no Brasil hoje. Atualmente, Gabriel se encontra na 5ª colocação no ranking brasileiro em sua categoria (WH1) simples e 7ª nas duplas. Ele também já participou dos campeonatos mundiais de 2011 (Guatemala) e 2013 (Alemanha) e possui diversos primeiros lugares em campeonatos brasileiros.

O atleta Gabriel Jannini, à esquerda (Imagem: Arquivo pessoal)

O atleta Gabriel Jannini, à esquerda (Imagem: Arquivo pessoal)

Arquibancada: Qual foi seu primeiro contato com o badminton?

Gabriel Jannini: O meu primeiro contato com o badminton foi em 2007-2008, em um clubinho que meu clube, Sociedade Hípica de Campinas, nos oferece durante as férias.


A: Quais foram as principais dificuldades que enfrentou até chegar onde está hoje?

GJ: As maiores dificuldades que encontrei até hoje, sem sombra de dúvidas, foram de conseguir algum auxílio financeiro ou patrocinador. Viagens bancadas a próprio custo, sem nenhum reconhecimento…


A: No Brasil, até mesmo para esportes mais conhecidos, falta muito investimento. Como é o caso do parabadminton? Você ja teve que desembolsar dinheiro próprio para ir às competições?

GJ: Falta muito investimento. O parabadminton ainda não é um esporte paralímpico, só se tornará em 2020 nas Paralímpiadas em Tóquio, por isso não recebe nenhum dinheiro do COB (Centro Olímpico Brasileiro), e aí não recebemos nenhuma ajuda. Nem bolsa atleta temos. Mas agora com essa entrada para 2020, muita coisa vai mudar. Sempre, minha família me ajuda também.

A: Como foi conciliar, durante a juventude, entre estudos e vida social, a rotina de treinos?

GJ: Até que foi tranquilo. Muitas vezes tinha que deixar de estudar pra treinar, ou treinar para estudar. Mas o que pegou mesmo foi na faculdade. Aí foi muito difícil conciliar os dois. Muito mais festas, baladas, bares etc…

A: Se pudesse dar uma dica/conselho a pessoas que desejem seguir nesse esporte, qual seria?

GJ: O conselho que daria seria: faça o que você ama! Não importa o quão difícil será essa jornada, no final valerá cada centavo de esforço. E muita calma. Badminton é um esporte para ter calma, paciência e garra. No começo, às vezes, é bem chato, mas depois quando você começa a conhecer melhor o esporte, se apaixona por ele… Aproveite o máximo o que o esporte te dá.

A: Você já sofreu algum tipo de preconceito no cenário esportivo?

GJ: Muitas poucas vezes. Lá, cada um se ajuda da maneira que der, todo mundo se zoa de “aleijado” (risos), ajudamos uns aos outros. Muitas vezes o preconceito surge de pessoas que são novas na modalidade, ou que não nos conhecem direito. Mas repito, não enche uma mão as vezes que sofri preconceito no esporte.

A: Quais são as suas expectativas quanto às Olimpíadas?

GJ: A minha expectativa para 2020 é de estar em Tóquio representando esse nosso tão querido Brasil. Estar em primeiro no ranking nacional e assim ir.

A: Algum dos problemas que você enfrentou no caminho já te fizeram querer desistir do esporte?

GJ: Justamente a fase em que eu entrei para faculdade de Administração na PUC-Campinas. Ficava faltando muito na faculdade, por conta dos torneios. Gostava do curso, mas resolvi trocar para Administração. Comecei firme com a nova faculdade. Me dediquei mais. Por isso, comecei a treinar menos; chegava muito exausto da faculdade, que estava me exigindo ao máximo. Não sabia se dormia, se estudava ou se fazia trabalho. Passaram-se as férias e decidi que nesse ano de 2016 começaria uma vida de atleta. Tranquei a faculdade de Administração e voltei a treinar forte todos os dias, de manhã e a tarde, musculação, fisioterapia, treino físico, psicólogo…

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“A minha expectativa para 2020 é de estar em Tóquio representando esse nosso tão querido Brasil” (Imagem: Facebook/Arquivo pessoal)

A: Algo muito comum no mundo do esporte é o receio dos familiares em investirem tudo no esporte. Aconteceu de sua família alguma vez te pedir para focar nos estudos, ou algo do tipo, que fosse tirar seu foco do esporte?

GJ: Sim, exato. Minha família sempre prezou pelo estudo, faculdade e trabalho. Quando eu cheguei com a notícia de que trancaria minha faculdade para ser atleta, foi um choque para todos. Mas eu expliquei minha decisão e eles olharam com carinho, e meio que “aceitaram”, porque viram que realmente o esporte me faz bem. Mas ainda ficam preocupados, assim como eu! (risos). Tudo depende da boa vontade de patrocinadores e auxílios externos ou governamentais.

A: Qual é seu maior desejo, o que você almeja mais na sua carreira esportiva?

GJ: Participar de uma Paralimpíadas. Mas é claro que, mais do que isso, vencê-la.

A: Quem é seu ídolo? (no parabadminton, no badminton e no esporte)

GJ: No parabadminton meu ídolo é um francês, David Toupé. Primeiro porque ele é da minha categoria e tem mais ou menos a lesão parecida comigo, e outra porque o cara é fera no esporte. No badminton para mim atualmente é nosso querido amigo atleta Ygor Coelho, que veio la da Chacrinha da periferia do Rio de Janeiro, ganhando tudo nas categorias de base. E assim que ele entrou para a categoria principal, alavancou todos no ranking se tornando nº1 do Brasil e conquistando uma vaga nas Olimpíadas do Rio de Janeiro neste ano de 2016. O moleque é “brabo”! E, no esporte, meu ídolo é o Fernando Fernandes, 5 vezes campeão mundial de paracanoagem, o cara tem uma garra e uma força para vencer a vida que não tem tamanho! Respeito ao máximo, porque um dia quero me tornar, no badminton, o que ele é na paracanoagem.

A: Com a entrada futura do parabadminton nas Olimpíadas, você acha que o investimento e a infraestrutura tende a aumentar?

GJ: Sim, com certeza. Me parece que a partir do ano que vem já começa o ciclo olímpico para 2020. E já com esse ganho, teremos a tal famosa Bolsa Atleta, que há 8 anos nunca consegui, para o ano que vem!

 

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