Para quem a gente vai torcer?

Por Cesar Isoldi

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Imagem: Cesar Isoldi

A pergunta do título é dessas que quase todo espectador olímpico se fez durante os Jogos. Quase, porque podemos excluir os brasileiros que viram o Brasil competindo ou os estrangeiros com os seus respectivos países.

À exceção da (longa) disputa do Pentatlo Moderno, não vi brasileiros competindo na Rio 2016. A semifinal do handebol masculino talvez seja o mais simbólico desse sentimento de confusão dentro do nosso peito.

Dinamarca e Polônia, quando entram em quadra, começam, cada um a sua maneira, a tentar conquistar a torcida.

Aquela música típica das competições em quadra já toca bem alta e os jogadores começam o aquecimento ao som de algum pop internacional. Os goleiros, que seriam grandes estrelas daquele jogo, são os que mais chamam atenção desde já. Joelho na orelha, pé na trave, contorcionismo puro. E a torcida ia junto.

– Eu quero ouvir a torcida da Polônia! – gritava a locutora.

– Polska! Polska! Polska!

– Eu quero ouvir a torcida da Dinamarca!

– Denmark! Denmark!

É nesse momento que os ainda sem torcida se encontram. Me simpatizo mais com os poleneses do meu lado ou com os dinamarqueses do outro lado da quadra? Qual a torcida que me anima mais? Até aquele momento, a Dinamarca parece ter mais adeptos.

– Por favor, fiquem em pé para ouvirmos os hinos nacionais dos países.

Está aí mais um importante momento. O hino mais enérgico acaba sendo o que atrai mais aplausos e, consequentemente, mais torcida. Ao final do agitado hino polonês, a reação foi mais efusiva. Antes mesmo do jogo começar, a disputa já estava equilibrada. E dentro de quadra, igualmente, o que só acirrava os ânimos da torcida.

Com um, ou no máximo dois gols de diferença, a Dinamarca ia permanecendo à frente com dificuldade. Mas chegou ao final do tempo normal à frente. Os poloneses, porém, não desistiram.

– Ole ole ole ola! Polskaaa! Polskaaaa!

Com o apoio da arquibancada cada vez maior, a Polônia cresceu no jogo. No último lance, em uma jogada toda torta, empate. A torcida explode. Vamos para a prorrogação.

(Aqui, aliás, cabe um parênteses. À exceção dos verdadeiros dinamarqueses, quase toda a arena comemorou aquele empate. Era a chance de prolongar o bom jogo por mais alguns minutos.)

Na prorrogação, a torcida ainda mais dividida. Cada gol era uma explosão. E em cada ataque do adversário, os gritos de “defesa” se faziam ecoar. Se o goleiro conseguia bloquear, então, não tinha quem não se animasse. E nesse aspecto, o goleiro dinamarquês sabia bem como conquistar a torcida.

E é graças a ele que a Dinamarca acaba o virando o “jogo da arquibancada”. Não à toa, no segundo tempo da prorrogação, é o time que começa a ter mais chances de levar a vaga na final.

A sirene soa e o jogo acaba. A Dinamarca vence e vai à final por um gol de diferença. Nas arquibancadas, festa após um belo jogo. Poloneses, dinamarqueses e brasileiros comemoram o espetáculo dentro e fora das quatro linhas.

A balela do espírito olímpico parece realmente existir. Não pela paz entre os povos, ou por simpatia pelo adversário (inalcançável em um país naturalmente rivalista). A torcida olímpica acaba sendo como um egoísmo caridoso. Pela fácil maleabilidade dos torcedores, que atuam como navegantes em um barco ao sabor dos ventos, a torcida para ver o melhor espetáculo acaba fazendo com que a torcida seja pelos dois times.

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