Craque dos tabuleiros

Mirella Cordeiro

Waldomiro observa seus alunos na EMEF do Jardim Nice, zona leste de São Paulo (Imagem: Mirella Cordeiro)

Waldomiro observa seus alunos na EMEF do Jardim Nice, zona leste de São Paulo (Imagem: Mirella Cordeiro)

Jardim Nice, zona leste de São Paulo. Sendo uma região que possui altos índices de violência urbana, não é sempre que a área leste da capital paulista é citada como parâmetro. Entretanto, Waldomiro Machado, professor de educação física, é um craque que trabalha para reverter essa situação.

O professor dá aulas na EMEF Roquette Pinto, escola municipal onde implantou o xadrez como esporte. Desde 2009 existe o Xadrez Movimento Educativo da Secretaria Municipal de Educação (SME) e, por isso, mais escolas estão incentivando a prática enxadrística. “O objetivo maior é aumentar a autoestima da criança. Porque há crianças que se sentem incapazes de tudo. Mas aprendem a jogar xadrez, começam a jogar bem e a se sentir valorizadas”, diz o professor.

História com o xadrez

A história de Waldomiro Machado com o xadrez começou aos oito anos de idade, quando ele aprendeu a jogar. “Mas na minha época, não tinha com quem jogar. Por isso eu tenho essas máquinas.” O professor possui algumas máquinas de inteligência artificial contra as quais, ainda hoje, joga. Ele também as utiliza na escola onde trabalha para auxiliar o ensino dos alunos.

“Um dia eu estava dando aula em uma escola em São Mateus e tinha um campeonato regional. Precisavam levar 5 crianças e perguntaram se eu podia levar.” Waldomiro respondeu que, desde que pudessem ficar com a aula dele, poderia. Ele levou essas crianças no SESC Itaquera e conta que, quando chegou lá e viu várias escolas jogando, ficou impressionado, não sabia que aquilo existia. Assim teve a ideia de introduzir o xadrez na EMEF Roquette Pinto e o plano se concretizou em 2001, oito anos antes da criação do programa municipal Xadrez Movimento Educativo.

Alguns alunso praticando nas aulas de Waldomiro (Imagem: Mirella Cordeiro)

Alguns alunos praticando nas aulas de Waldomiro (Imagem: Mirella Cordeiro)

Durante a entrevista, o professor de educação física conta, orgulhoso, que cuida sozinho de cerca de 20 turmas, do segundo ao nono ano. O segredo para instruir a tantos sem ajuda é dividir as aulas em dois momentos: no primeiro momento é praticado o xadrez e, no segundo momento, outro esporte. Além disso, Waldomiro usa programas de computador para criar torneios entre os próprios alunos, dos quais ele sempre escolhe um para cuidar da classe enquanto atende a outras crianças e adolescentes. Depois que a iniciativa ganhou apoio da escola, reformas também foram feitas para acolher melhor ao projeto. Na área da quadra, há mesinhas com tabuleiros gravados que atendem a 32 alunos por vez e, no chão, um tabuleiro gigante utilizado para facilitar o exercício dos estudantes mais novos.

Transformação e receptividade

Entre o chamado de uma criança e outra, ele narra a história de um aluno cuja história impressiona. “O Fernando chegou a agredir professoras e o xadrez o mudou.” O professor revela o quanto o projeto ajudou um jovem revoltado, que estava atrasado em relação aos outros na escola e que possuía dificuldades no aprendizado. “Pensei ‘será que o xadrez não pode ajudar essa criança a melhorar?’ E eu investi. Apresentei o jogo. Ele aprendeu rapidinho e começou a se apaixonar pelo xadrez. Começou a evoluir, começou a estudar livros sobre o esporte. E o Fernando era uma pessoa que tinha dificuldade na leitura, na interpretação de texto, então o xadrez fez com que ele melhorasse em diversos aspectos”.

Hoje, mestre nacional pela CBX (Confederação Brasileira de Xadrez), Fernando se tornou motivo de orgulho para Waldomiro. “É o sonho de todo professor, né… Ver o aluno superar o mestre!”. Diante de transformações como esta, a receptividade do projeto pelos pais e pela comunidade é excelente.

O professor deixou claro que sabe da diversidade de gostos das crianças. Sabe que nem todas adoram esportes mais parados. “Tem crianças que amam xadrez, tem crianças que gostam, tem crianças que tanto faz e tem crianças que não gostam”. Mas fala que não pode trabalhar apenas com alunos que gostam muito e que são muito bons no xadrez. “É em cima da quantidade que vem a qualidade”.

O craque e o troféu (Imagem: Mirella Cordeiro)

O craque e o troféu (Imagem: Mirella Cordeiro)

Títulos

Juntamente à EMEF Bartolomeu Lourenço de Gusmão, também da zona leste da capital, a escola em que Waldomiro trabalha é uma grande campeã de torneios municipais escolares. “Os [títulos] mais importantes são cinco municipais individuais e três por equipe. E vários individuais e por equipe regionais. Mas um muito importante foi um torneio que o Roquette ganhou do Pelikian. Um torneio lá no Colégio Paulistano em que tinha escolas estaduais e particulares também. Nós participamos duas vezes e uma vez fomos campeões.” O professor Jefferson Pelikian é um mestre internacional e considerado o melhor professor de xadrez do Brasil. Ele era professor da equipe mais forte no campeonato. “É, foi uma coisa inesquecível”.

Porém, Waldomiro Machado não tem boas perspectivas quanto a continuidade do projeto na escola quando ele se aposentar, a exemplo de outro lugar. Ele afirma que “o projeto não é da escola, é do professor”. Infelizmente, a falta de apoio da instituição às vezes supera a iniciativa pessoal, não importa o quão boa ela tenha se mostrado.

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