Vícios no mundo do esporte: sensacionalismo e negligência

Por Aline Melo e Lucas Almeida

Hábitos saudáveis e prejudiciais tendem a ser mais duradouros quando adquiridos na adolescência, no que se refere tanto à prática de atividade física quanto ao uso de álcool e outras drogas. Não é por acaso, então, que grandes carreiras no esporte se iniciam já na juventude e são interrompidas por dependências químicas que, geralmente, vêm desse período (você pode conferir a definição de dependência química, bem como de vícios, nesse texto do Laboratório).

Mais do que a formação do indivíduo, no universo do esporte é preciso considerar as muitas exigências impostas, como a necessidade de um alto desempenho na sua profissão. Afinal, quem não gostaria de participar de um grande clube e jogar em opulentos estádios? Para alguém que vive disso e tem de suportar as dores, a exaustão dos treinos, além de se recuperar rapidamente das suas lesões, a ambição é só a ponta do iceberg. Antes de qualquer modalidade esportiva, atletas são humanos e são vulneráveis a uma série de vícios.

Uma pesquisa do Centro de Estudo em Psicobiologia do Exercício, da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), identificou que 28% dos atletas brasileiros profissionais são viciados na própria prática de exercícios. Foram analisados os comportamentos de 400 atletas brasileiros, sendo 200 deles de elite, com nível internacional em diversas modalidades, incluindo futebol, vôlei, judocas e ginastas, comparados a 200 praticantes amadores. O vício aqui é caracterizado pela prática do exercício físico interferir no desenvolvimento de outras atividades, sejam elas profissionais, sociais, familiares ou psicológicas.

Além do vício no próprio esporte, é necessário colocar que uma série de carreiras são interrompidas por conta da dependência química. Mais do que o mero uso de estimulantes e analgésicos, a que deveria se ater o doping, nos interessa aqui drogas relacionadas à sensação de prazer, como o álcool e a maconha. Uma importante colocação é a do filósofo William James:

A influência do álcool sobre a humanidade é, sem dúvida, devido ao seu poder de estimular as faculdades místicas da natureza humana, geralmente esmagadas até ao pó junto a realidade nua e crua e as críticas secas das horas que se passa sóbrio”.

Um dos populares casos foi o de Laremy Tunsil que, às vésperas do draft (momento em que as equipes profissionais da liga profissional de futebol americano se reforçam antes da temporada) deste ano, foi envolvido em uma polêmica: um vídeo em que aparece fumando maconha em um bong foi veiculado na sua conta pessoal no Twitter. Isso o afetou consideravelmente na opinião dos clubes e ele teve seu nome cortado do Dallas Cowboys, do San Diego Chargers e também do Baltimore Ravens, sendo draftado apenas na 13ª pick (escolha) pelo Miami Dolphins.

Laremy Tunsil, hoje no Miami Dolphins

Laremy Tunsil, hoje no Miami Dolphins (Imagem: Reprodução/Google)

A NFL (National Football League) tem um histórico de falso moralismo: vinte dos seus times jogam em estados onde a maconha é legal, mas ela insiste em punir seus jogadores pelo uso da substância. Há olheiros que estão atentos a todo tipo de informação, inclusive de caráter privado desses atletas;e a diretoria dos times não exita em transformá-los em mártires para passar uma determinada imagem conservadora.

O veterano Ricky Williams, que encerrou sua conturbada carreira em 2012, tem feito uma campanha para reverter essa abordagem ultrapassada da NFL à maconha. Na posição que figura, a liga poderia investir em realmente cuidar dos seus jogadores. A reação coletiva ao caso de Tunsil, na sua opinião, serve como um lembrete da ignorância dessas pessoas. Hoje, fora das convenções dessa indústria, questiona se todos os problemas da sua carreira resultaram de pessoas com mente muito fechada, que o faziam sofrer de ansiedade em situações sociais.

“Na minha busca pela verdade, eu aprendi a ser confortável comigo mesmo de uma forma que eu não tenho que pedir desculpas ou tentar esconder partes de mim para provar que sou uma boa pessoa. O legado que quero deixar é aquele fiel a quem eu era. Não é uma imagem retratada do que eu deveria ter sido.”

Ricky Williams é um ex-atleta que questiona a postura da NFL em casos como o de Tunsil (Imagem: Reprodução/Google)

Ricky Williams é um ex-atleta que questiona a postura da NFL em casos como o de Tunsil (Imagem: Reprodução/Google)

O maior evento de MMA do mundo, o UFC, passa pela sua maior crise em relação a credibilidade em suas lutas. O número de casos de atletas com resultados positivos nos exames antidoping vem crescendo cada vez mais. Embora não tenha sido flagrado no auge da carreira, Mike Tyson afirmou em sua biografia, denominada Undispoted Truth, que mesmo ele usava cocaína desde os onze anos e que, inclusive, usava antes das lutas.

Para não ser pego no doping, Tyson chegou a usar um pênis falso com a urina de outra pessoa. Foi dessa forma que sua dependência química foi divulgada ao grande público: em manchetes sensacionalistas relacionadas à artimanha. A consternação ficou, então, retida nas entrelinhas da própria obra, como na passagem que assume ser “um completo drogado” e coloca “A história da guerra é a história das drogas. Todo grande general e todo grande guerreiro era drogado”. Há uma dor aí que não vende jornal, que é indigesta demais para as manhãs.

Tyson e suas artimanhas para escapar do doping (Imagem: Reprodução/Google)

Tyson e suas artimanhas para escapar do doping (Imagem: Reprodução/Google)

Não faltam exemplos de como os vícios, dependências químicas e transtornos são negligenciados todos os dias no mundo do esporte. No futebol por exemplo, é comum que grandes clubes brasileiros tenham jogadores alcoólatras. O zagueiro Álvaro, quando era campeão pelo Flamengo em 2009, passou por complicações com alcoolismo e afirmou: “Metade dos grandes clubes têm problemas com jogadores alcoólatras”.

Desde Garrincha, que morreu aos 49 anos de cirrose hepática, ao zagueiro brasileiro Breno, do Bayern de Munique, que alcoolizado incendiou a casa com sua família, as histórias se valem das especificidades para condenar um ou outro, mas – Deus nos livre – não a doença.

Regis Pitbull, que chegou a jogar na Ponte Preta, Vasco da Gama e Portuguesa antes de interromper sua carreira para tratar o vício do crack, pontua em entrevista à Fox Sports justamente a dificuldade de se adaptar às expectativas do público.

“Depois de tudo que passei, viver sóbrio todos os dias é muito difícil. É uma batalha. Mas tenho conseguido (…) Todo mundo tira nossa vida como exemplo. É uma profissão que nos deixa em evidência. Nos tornamos uma pessoa pública e todos acabam vendo o crescimento da vida da pessoa, por isso ficamos como uma referência.”

E os exemplos são vastos. O jogador Michael, hoje emprestado ao América Mineiro, falou em entrevista como foi chocante para o atleta e o resto da família ver sua carreira ser comentada até no Jornal Nacional. Michael teve envolvimento com cocaína e afirmou: “Não me sinto um cara curado e nem livre disso. Tenho em mim que sou fraco perante isso e preciso de ajuda”, mas comentou de como a imprensa e a própria torcida ainda o lembra pelo envolvimento com a droga.

Se a imprensa não sabe tratar o vício como o distúrbio – tão humano – que é, ela definitivamente sabe usá-lo para sustentar sua tão gasta meritocracia. O sul-africano Luvo Manyonga ficou conhecido por conquistar a medalha de prata no atletismo no Rio-2016, “apesar de ser um ex-viciado em metanfetamina”. Em 2012, quando seu exame antidoping deu postivo numa competição na África do Sul, foi condenado a 18 meses de “gancho”. Nesse período, afundou-se ainda mais no vício, ficando 4 anos afastado das pistas, mas retornando sóbrio e – evidentemente – pronto.

O discurso sobre vícios no universo do esporte só é usado em duas formas essenciais pela mídia: como um obstáculo superado ou como ponto final de uma carreira. Independente de como seja retratado ou queira ser visto, nos assombra por todos os lados: na ciência, na música, no cinema… Uma hora teremos que começar a representar esse tema de forma construtiva, para lidar com os preconceitos que envolvem as drogas ilícitas e repensar a posição de extremo desgaste que os atletas vivem atualmente.

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