Craques e ídolos

Luís Henrique Franco

Neste ano de Olimpíadas, o esporte voltou a ser um tema popular de debates. Por onde andei, vi pessoas conversando sobre as modalidades esportivas e sobre os atletas, principalmente sobre os ditos craques da vez, personalidades que se sobressaíram em seus esportes. Nesse momento, sempre surge a pergunta: o que faz de um atleta um craque?

Em todo ambiente esportivo, a palavra craque designa aqueles que são ditos como os melhores naquilo que fazem, os que se sobressaem acima dos demais, donos de grandes jogadas e grandes marcas pessoais. Desde pequeno eu via os grandes e tudo o que desempenhavam, mas o que mais me surpreendia era que, apesar de tudo o que estes faziam, o nome do jogo às vezes era outro, que muitas vezes não era tão bom assim. E eu ficava na dúvida de como um jogador pior poderia receber mais atenção que o outro que jogava bem?

Quando debatiam sobre os craques que haviam passado pelo Corinthians, meus amigos corintianos mencionavam Ronaldo e Vampeta, alegando, porém, que não poderiam comparar os dois, pois Ronaldo havia feito história como jogador, enquanto Vampeta só era famoso por ser um “homem show”, fazendo brincadeiras e exibições sem, contudo, ser um grande jogador. Ainda sobre o Corinthians, meu tio costumava citar como grande craque o jogador Roberto Rivellino, uma lenda em campo, mas que na época era criticado pelo público por não se entregar tanto à camisa, ao passo que Zé Maria, outro jogador que não era tão bom quanto ele, era um ídolo, adorado pela torcida. Se pararmos para analisar na questão temporal, torna-se claro que Rivellino acabou sendo reconhecido como um jogador melhor do que Zé Maria, e hoje é consagrado como um herói do Corinthians, mas na época em que os dois jogavam, Zé Maria acabou por ficar mais popular entre a torcida.

O craque do Corinthians, Roberto Rivellino

O craque do Corinthians, Roberto Rivellino (Foto: R7)

A diferença está em todos os esportes. No basquete, o time americano Cleveland Cavaliers contou, em sua história, com a presença do americano LeBron James e do brasileiro Anderson Varejão, inferior em habilidade se comparado a James, mas extremamente adorado pela torcida, que costumava, inclusive, ir ao jogo vestida com perucas semelhantes ao cabelo dele, ao passo que LeBron ainda é criticado por ter mudado para o time de Miami. E essa talvez seja a principal diferença entre o craque e o ídolo. O segundo é eternizado pelo que faz pelo seu time, por sua devoção à camisa, à torcida, ao clube.

Adorado pelo público, Anderson Varejão foi um dos destaques da história do Cavaliers (Foto: Reprodução)

Adorado pelo público, Anderson Varejão foi um dos destaques da história do Cavaliers (Foto: Reprodução)

Muitos bons jogadores e atletas são esquecidos por sua torcida, enquanto outros nem tão bons são eternizados porque se dedicam, dão seu sangue pela sua torcida e, mesmo que não tenham tanta classe, não desistem e persistem nas jogadas. Às vezes, habilidade não é tudo: quando se entra no gramado e se ouve a torcida gritando pela vitória; quando se entra na quadra e se vê todas aquelas camisas de seu time, todas aquelas cores; quando o nadador ouve seu nome ser gritado segundos antes de entrar na piscina; quando a torcida pede pela sua garra, o atleta, bom ou ruim, dará tudo de si para satisfazer seu público. Quando vejo um jogo, me pergunto o que vale mais: a jogada muito bem-feita ou a raça daquele que, mesmo sendo inferior, não desiste de seu clube, de sua equipe. Em um esporte com uma torcida tão grande quanto o futebol, jogadores que passaram anos em um mesmo clube são imortalizados por seus torcedores. É o caso dos goleiros Marcos, do Palmeiras, e Rogério Ceni, do São Paulo. Era difícil ver um jogo com um desses dois e não sentir a força que impunham, o peso de anos usando uma mesma camisa.

Tendo ambos participado da Seleção Brasileira de 2002, tanto Marcos (esquerda) quanto Rogério Ceni (direita), tornaram-se lendas em seus times, nos quais permaneceram durante toda a carreira (Foto: Futebol na Veia)

Tendo ambos participado da Seleção Brasileira de 2002, tanto Marcos (esquerda) quanto Rogério Ceni (direita), tornaram-se lendas em seus times, nos quais permaneceram durante toda a carreira (Foto: Futebol na Veia)

Percebo cada vez mais que o esporte não é algo frio, matemático e calculista. A paixão mobiliza os jogadores, faz com que seus méritos sejam mais do que belas jogadas. Não se pode dizer mais que alguém é bom em um esporte só porque suas jogadas têm muita classe. Se um belo lance não é feito com determinação, com vontade, com espírito; o público não saúda uma jogada vazia, mas a força de um jogador que, enquanto em campo, nunca se rende e luta até o último minuto.

Nem todo ídolo é craque, e nem todo craque é ídolo. Mas quando essas duas qualidades se juntam, o resultado são atletas inesquecíveis como os futebolistas Sócrates, Marcos e Kaká, o líbero brasileiro Serginho e a levantadora Fofão, o jogador Michael Jordan, entre muitos outros. Estes não eram simplesmente bons, mas eram bons no sentido de que dava gosto e valia a pena vê-los jogar, pois carregavam nas camisas que vestiam o peso do amor de seus torcedores e se faziam merecedores deste.

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