Se não tem circo, que vão aos estádios

Por Carol Unzelte e Daniel Miyazato

O autoritarismo controla oposições. Confere a tudo um ar de legitimidade. O totalitarismo absorve vontades individuais. Nele, não há oposição, apenas o um Estado, em uma forma passional do Leviatã de Hobbes. Independente do tipo de regime, as ditaduras têm no esporte um ponto em comum. Não que este seja uma de suas causas, porém, entreter o povo é um dos fundamentos dos governos autocráticos.

As ditaduras do século XX utilizaram eventos esportivos ostensivamente para anestesiar ou reforçar seus domínios. O objetivo é claro: tirar vantagem do caráter emocional da torcida, inibindo críticas racionais. Neste contexto, a vitória da brasileira na copa de 1970 é emblemática.

O Arquibancada conversou com doutorando em ciência política da USP, Aníbal Chaim, sobre como tais tipos de governos articulam o esporte para benefício próprio. Chaim é autor da tese de mestrado “A bola e o chumbo: futebol e política nos anos de chumbo da ditatura militar brasileira”.  

Arquibancada: Por que nós torcemos?

Aníbal Chaim: Um time de futebol representa uma coletividade. As pessoas torcem a favor, porque se identificam com uma, ou contra, porque têm repulsa por outra. O torcedor, por definição, é aquele que se sente dentro de uma coletividade, seja qual for o perfil desta última.

A: Qual a diferença do uso do esporte em um regime autoritário e em um regime totalitário?

Quando falamos de Estados Nacionais, normalmente é construída a noção pública de “comunidade nacional” e os representantes do Estado atrelam as equipes esportivas domésticas a essa comunidade.

A diferença está na ênfase. Um regime totalitário é personalista, e então o esporte será utilizado para fortalecer a imagem/governo do líder. Em regimes não-totalitários, o expediente mais comum é tornar o esporte o centro das atenções, e os atletas mais importantes que os próprios governantes. A tradução disso para o caso brasileiro é intuitiva: era do interesse de Garrastazu Médici [presidente entre 1969 e 1974, durante a ditadura civil-militar] que a referência brasileira para o mundo durante seu governo fosse Pelé, e não o próprio Médici.

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O capitão Carlos Alberto Torres levanta a Taça Jules Rimet com a vitória da Copa do Mundo de 1970, evento utilizado pelo regime militar como propaganda do governo. (Créditos: Reprodução)

A: Em que outros locais e momentos políticos essa utilização aconteceu?

Os casos clássicos são a Alemanha nazista, a Itália fascista e a URSS – por definição – socialista. Nas Américas, os casos mais conhecidos são os de ditaduras: a brasileira (1964/85), a argentina (1976-83), a chilena (1973-1990) e a cubana (1959-). em todos eles, o modus operandi é o que mencionei acima: os estadistas criam, a partir do monopólio/controle da mídia, a noção pública de “comunidade nacional” e promovem propaganda massiva para tornar essa ideia tangível à população, isto é, fazer com que seu próprio povo se identifique com essa comunidade. Feito isso, delega-se a representação desta comunidade aos atletas, que deixam de representar suas confederações nacionais esportivas, e passam a representar o “Brasil”, ou a “Argentina”, e etc. No Ocidente, o esporte que produz essa identificação de forma mais forte é o futebol.

A: Como a ditadura militar usou o futebol como propaganda do regime? Quais foram as consequências dessa utilização?

O método foi explicado na pergunta anterior. A consequência disso foi o encobertamento da política pelo esporte, especialmente o futebol para o caso brasileiro. A ditadura brasileira conseguiu transferir a representação nacional de maior importância no imaginário popular para o futebol, notadamente a seleção brasileira de futebol. Outro desdobramento foi a exponenciação da importância social do futebol em detrimento da política, exatamente o que seus ideólogos planejaram.

A: O fenômeno do esporte como propaganda é mais forte no Brasil por conta de nossa cultura mais passional?

Talvez. Não acho que nossa cultura seja menos passional que a de nossos vizinhos latinos, e com certeza é menos passional que a de gregos e turcos, por exemplo.

A: Recentemente, enquanto víamos a tragédia envolvendo a Chapecoense, a PEC do teto foi aprovada na Câmara dos Deputados. Hoje a manipulação ocorre mais ao acaso?

No Brasil de hoje, política e esporte se misturam em escala muito menor que em décadas anteriores. É assim desde os anos 1990. Eu colocaria o caso da Chapecoense na estante dos casos de comoção nacional, e não necessariamente na dos de uso político do esporte. Se ao invés de um acidente envolvendo um time fosse o assassinato escandaloso de um artista famoso, a oportunidade para usar isso para encobrir a votação da PEC – se era essa, de fato, a intenção – seria exatamente a mesma.

A: Qual a diferença entre o sentimento de pertencimento a uma ideologia e o sentimento de identificação em relação a um clube?

A relação de um indivíduo com um ideologia é racional em relação a valores, o que significa que ele pode ponderar quais valores julga melhor entre os vários possíveis, e então escolhe os seus. A relação de um indivíduo com seu clube é afetiva, o que significa que não é uma escolha racional. Valores estão dentro da racionalidade humana; sentimentos, não. É exatamente por isso que somos “manipuláveis”; é esta a raiz do poder político do futebol. Quem controla o futebol tem acesso direto às emoções mais íntimas e irracionais dos cidadãos. O amor e o ódio levam as pessoas a agir irracionalmente, e há muitos que querem/podem se beneficiar – politicamente, inclusive – disso.

 

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