Uma das lutas mais tradicionais do mundo pode te surpreender

Reprodução: UOL Notícias

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Por Fredy Alexandrakis

No extremo da Turquia com a Grécia, na cidade de Edirne, disputa-se o segundo mais antigo campeonato esportivo ainda em existência, atrás apenas dos Jogos Olímpicos. No torneio, conhecido como Kirkpinar e considerado pela UNESCO um Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o embate acontece em uma das lutas mais tradicionais do mundo, o yagli güres, ou “luta de azeite” – datada de 1361. No entanto, apesar de sua idade, essa luta pode parecer pouco convencional ao espectador brasileiro, à primeira vista.

Vestindo apenas uma calça que vai da cintura até abaixo do joelho, os dois lutadores são inteira e minuciosamente besuntados em azeite (inclusive por dentro de suas vestimentas), e buscam derrubar um ao outro de costas, em combates de muito contato (sendo permitido até colocar as mãos por dentro da vestimenta do oponente). Os movimentos que, no Ocidente, podem ter conotações sexuais, na tradição turca adquirem contornos religiosos.

Esporte é cultura e tradição

Todos os aspectos da luta de azeite que podem ser cômicos aos olhos brasileiros, em Edirne, são cheios de significado e carregam a história local. Nem o azeite é arbitrário: cumpre as funções de aumentar a dificuldade do combate, por tornar os lutadores escorregadios; e protegê-los de mosquitos e do contato com a grama. A vestimenta, chamada “kisbet” – aparentemente uma simples calça – é feita de couro em processo artesanal. Antes de vesti-la, os lutadores fazem uma oração, beijam-na e levam à testa três vezes.

Por lá, os lutadores são muito prestigiados; e os campeões, reverenciados. São conhecidos como “pehlivan”, ou heróis. O yagli güres é um esporte extremamente exaustivo: as lutas duram até 30 minutos sob o sol escaldante, podendo ter até 10 minutos de prorrogação. Originalmente, não tinham limite de tempo. Por isso, os lutadores que se aventuram a competir o Kirkpinar não raro se dedicam integralmente à vida de atleta, sem tempo para outros empregos. O treinamento é pesado e objetiva exercitar todas as partes do corpo, além de melhorar a resistência do atleta. Apenas algumas vitórias são necessárias para ganhar o respeito da população local, que incentiva fortemente os que demonstram interesse pela luta; muitos restaurantes oferecem refeições de graça aos pehlivan.

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Reprodução: Globo Esporte

A competição, a luta e as regras

O Kirkpinar consiste em três dias de lutas eliminatórias, das quais participam cerca de 1500 lutadores da Turquia inteira. O torneio conta com 13 categorias, cada qual com seus 1º, 2º e 3º colocados. Somente tricampeões são honrados com o cinturão; o maior pehlivan vivo, Ahmed Tasci, é heptacampeão e possuidor de dois cinturões do torneio.

Sendo originária da região de Samona, atualmente parte da Grécia, a luta se assemelha muito à olímpica (ou greco-romana), com diferenças pontuais, como o fato de não haver delimitação da área de combate no yagli güres. Como na luta olímpica, derrubar o oponente de costas no chão (“com o umbigo para o céu”) é o modo mais comum de garantir a vitória. Há, todavia, outras formas de vencer antes de o tempo terminar: Desistência do oponente; segurá-lo de barriga no chão, com o rosto enterrado na grama; retirar o kisbet do adversário; segurá-lo no ar e andar cinco passos enquanto o carrega.

Existe também, entretanto, um sistema de pontuação relativamente recente – recebido com controvérsia pelos tradicionalistas, que defendem que a luta siga “até o fim”, ou seja, até que um dos pehlivan consiga dominar o outro em algum dos movimentos listados no parágrafo acima, sem limite de tempo. Segundo as novas regras, deixar o oponente de joelhos e agarrá-lo pelas costas são 2 pontos – sair dessa situação de submissão, 1. Conseguir passar da posição de defesa para o ataque rende 2 pontos. Em caso de empate, tendo já passado o tempo da luta e da prorrogação, o lutador a fazer o primeiro ponto ganha.

Antes de a luta começar, os pehlivan fazem orações e cumprimentos simbólicos, como o gesto de pegar um pouco da terra do gramado e passá-la na testa, indicando que “da terra viemos e à terra voltaremos”. Os lutadores se tratam com o mais total respeito, o que se reflete na quantidade relativamente pequena de regras do esporte: só não é permitido “socar, bater, morder ou ferir”, mas, de modo geral, conta-se mais com o espírito esportivo do que com a necessidade de punição. Durante a competição, música tradicional de baterias e flautas é tocada.

Reprodução: Globo Esporte

Reprodução: Globo Esporte

É verdadeiramente notável que, em um mundo tão focado em boxe e MMA, uma luta relativamente desconhecida pelo Ocidente consiga sobreviver ao teste dos séculos. Para Ahmed Tasci, que hoje treina novos pehlivan, a luta de azeite é um dos últimos resquícios que prendem a população turca à uma cultura tão antiga e rica. Isso é o que assusta os torcedores de longa data sobre as mudanças feitas às regras; eles acreditam que estão tornando os novos lutadores mais cautelosos, e até preguiçosos. Contudo, Bekir Ceker, presidente da Federação Turca de Luta, enxerga a situação de um ponto de vista mais pragmático: para ele, os pontos e o limite de tempo são uma necessidade, devido ao grande número de competidores. Sem eles, o torneio poderia se arrastar por dias a fio.

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