Futebol Arte: Livro reúne o trabalho de Guillermo Mordillo

Por Pietra Carvalho

Se a obra de um artista é em algum nível biográfica, a personalidade de Guillermo Mordillo não é encoberta por seus personagens de nariz grande arredondado ou por sua inserção de animais, especialmente a girafa, em seus desenhos. Mesmo por trás de um traço bastante reconhecível e de suas marcas registradas, ainda é possível enxergar as paixões desse argentino radicado na Europa. O livro Mordillo: Futebol e Cartuns (Panda Books, 2015), reúne uma coletânea do trabalho do cartunista com enfoque no esporte que permeou sua infância: o futebol.

Mordillo dá aula de humor ー literalmente, sendo catedrático da matéria em uma universidade espanhola ー e o faz por meio de uma ironia silenciosa. Após se instalar em Paris, nos anos 60, Guillermo se tornou um profissional requisitado por seu estilo marcante e peculiar, sem o domínio da língua francesa, no entanto, optou por um trabalho unicamente visual. Seus desenhos não contam com as palavras como apoio, e seus traços tem que ser contundentes o bastante para ter a substância de carregar uma mensagem. E é uma missão realizada com sucesso. Por vezes, a moral por trás do desenho é implícita, e dá margem a interpretações diversas, o que combina com o fato de que o ato de torcer é também muito particular e múltiplo. Cada um enxerga a emoção do futebol de uma forma e sua imprevisibilidade, exaltada pelo próprio artista, combina com os desfechos e metáforas surpreendentes dos cartuns. Mordillo brinca invertendo papéis, reinventando figuras e quebrando expectativas. Além disso, seus desenhos contam com uma substância acrescida pela familiaridade e por uma riqueza de detalhes. É perceptível que, para além de ilustrador, é  um fã do esporte o responsável pela arte.

(Imagem: Pinterest)

Esse conhecimento de causa ampara um outro diferencial do cartunista. Situações icônicas no contexto futebolístico, como a famigerada paradinha na hora do pênalti ー que dividia opiniões e foi proibida pela FIFA já há alguns anos ー são inspirações. Além disso, é perceptível a preferência de Mordillo por uma posição em especial: a de goleiro, que na maioria das situações que reproduz usa formas bem pouco convencionais para defender seu gol. Além do destaque para o cara a cara na grande área, também existem brincadeiras com o conceito da bola de futebol como objeto, substituída pela de golfe e de basquete, e com aqueles famosos jogadores que executam belas jogadas desperdiçadas em uma péssima finalização.

(Imagem: Pinterest)

Para rivalizar com um pai fã do River Plate, o artista passou alguns anos torcendo para o Boca Juniors e, já um pouco mais velho, se tornou um grande apoiador do Ferro Carril, outro time argentino. Em um dos cartuns, o desenhista reúne referências dos clubes em um só carro, em que rivalidades são esquecidas. Tal situação parece um pouco utópica, ainda mais levando em conta que a torcida argentina é uma das mais passionais do mundo, mas é também marca de uma grande capacidade imaginativa. Em várias das charges, as figuras de Mordillo se encontram isoladas, convivendo apenas com uma bola de futebol em um espaço muito limitado. As diversas tiradas feitas nessas situações refletem algo que o desenhista expressou em entrevistas: a crença de que todos estamos sempre sozinhos e a criatividade é a única forma de nos fazermos menos isolados.

Duas das charges mais marcantes do livro mostram um tipo de isolamento bastante contemporâneo no futebol profissional: em que o público que assiste aos jogos in loco é distanciado da vibração da partida ー mesmo que ainda mantenha sua emoção particularーatravés de restrições cada vez maiores ao modo de torcer e uma relação mais fria entre jogadores e torcedores. É uma racionalização comercial de um esporte que sempre lidou com tantos sentimentos.

(Imagem: Pinterest)

Em suas ideias, o Planeta Terra se transforma em uma bola de futebol e um gramado. Um estádio futurista parece uma incubadora, conectada a mil tubos. O campo pode habitar uma montanha ou um deserto,em que toma a forma de um tapetão, que não aquele habitual de certos times. Na Paris em que sua carreira deslanchou, os cartões postais batem bola. Com a Torre Eiffel furando a defesa do Arco do Triunfo. Em Nova York, a tocha da Estátua da Liberdade vira uma luva (mais uma vez, o goleiro é protagonista). E ainda existem as inúmeras referências ao golfe, o hobbie da vida adulta de Mordillo, o que explica a profusão de tacos em algumas de suas criações. Um único porém quanto à sua construção criativa, é o papel da mulher em seus desenhos. Fica claro que o artista é contemporâneo de um futebol bastante dedicado aos homens já que, nos poucos cartoons em que aparece, a figura feminina é retratada como figurante ou até mesmo uma distração ao desempenho masculino.

Um ponto fora da curva em um trabalho que valoriza as diferenças. Assim como no futebol, na obra de Guillermo tamanho nem sempre é vantagem. No esporte, diversas variáveis determinam quem é o favorecido. Baixinhos também fazem gol de cabeça. Também dão balão e driblam gigantes. Quando jogador, Mordillo não aguentou 10 minutos em um campo de dimensões oficiais. Com sua arte, dominou toda a extensão do gramado e fez a sua criatividade brilhar dentro das quatro linhas. Um esporte coletivo que mesmo pensado individualmente continua com o poder de alcançar multidões.

(Imagem: Pinterest)

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