A jornada do herói em filmes esportivos

Por Bruno Menezes e Maria Carolina Soares

A maioria das histórias precisa de um enredo se quiser fazer sentido. Um começo, um meio e um fim, mesmo que não sejam apresentados nessa ordem. Entretanto, isso foi levado a sério demais pela indústria cinematográfica. Os filmes começaram a repetir a mesma receita e isso se torna ainda mais evidente em longas sobre esportistas.

Na literatura, essa técnica tem um nome: a jornada do herói, dado pelo teórico Joseph Campbell. Ela representa as etapas que o protagonista passa para atingir o seu destino. De acordo com o Professor de Ciências da Comunicação da USP Ivan Paganotti, em entrevista a Jornalismo Júnior, “ao analisar narrativas mitológicas, Campbell identificou estágios que os heróis ou heroínas passam ao superar desafios e vencer adversários para encontrar seu reconhecimento na sociedade e conquistar recompensas”.

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Paganotti afirma que a jornada possui 17 estágios divididos em três partes: a partida, iniciação e o retorno. “Essa sequência identificada por Campbell constrói uma narrativa envolvente e, por ser facilmente absorvida pelo público, acabou sendo tomada como base na construção de histórias contemporâneas por diversos autores nas mais variadas mídias”.

Entretanto, como Ivan mesmo afirma, nem todos os filmes seguem as 17 etapas, mas isso não impede com que se enquadrem nessa classificação. “Muitos filmes passaram a utilizar esse mecanismo de estágios para a composição de sua estrutura básica, pois ela apresenta uma linha mestre para uma narrativa de superação e conquista, facilitando o trabalho dos roteiristas e dos executivos responsáveis em planejar a história”.

Para verificarmos isso, analisaremos cinco filmes em relação à Jornada do Herói: Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004); Invictus (Invictus, 2009); Sonhos no Gelo (Ice Princess, 2005); O Vencedor (The Fighter, 2010) e Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009).

Sonhos no Gelo

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Casey é uma estudante de ciências que sonha em ganhar uma bolsa para as maiores universidades dos Estados Unidos. Para isso, inicia um estudo sobre os princípios da física aplicados à patinação no gelo. Porém, o que ela não esperava era gostar do esporte. O filme dirigido por Tim Fywell segue quase que fielmente todos os passos da jornada. Isso é marcado, principalmente, pela história de superação retratada, já que Casey se recusa a participar ativamente dos treinos e atividades inicialmente (“a recusa do chamado”).

Além disso, é importante ressaltar os obstáculos pelos quais ela passa durante a narrativa, fases na teoria de Campbell intituladas como “a passagem pelo primeiro limiar” e “o caminho de provas”. O final também se mostra bastante fiel a essa sequência com cenas de glória na “apoteose” ー o grande clímax ー e “a liberdade para viver” ー quando o herói pode voltar às suas atividades cotidianas após a aventura.

Cenas contrastantes durante o longa, como quando Casey é prejudicada pelos patins novos e quando se apresenta perfeitamente, só reforçam esse estereótipo do herói de Campbell, que passa por milhares de dificuldades, mas supera todas e acaba por ser um grande sucesso em sua missão, seja ela qual seja.

Um Sonho Possível

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Também no filme que rendeu o Oscar a Sandra Bullock, temos a clássica história da jornada do herói. Mike é um adolescente que teve uma infância difícil com a mãe viciada, sofre preconceito por ser negro e não tem onde morar. Entretanto, ele recebe a ajuda do pai de um amigo e ganha uma bolsa de estudos na melhor escola particular da cidade. Essa é também uma marca da sequência: a ajuda externa, com uma pequena mudança da teoria original pela falta do componente sobrenatural.

A superação é a parte principal da narrativa, já que Mike se descobre uma estrela do futebol americano. Porém, outra parte importante é o papel do treinamento do guru, sendo que a mentora, nesse caso, é Leigh Anne (Bullock), que o leva para casa e o trata como filho.

Outra fase marcante em Um Sonho Possível é “a passagem pelo limiar do retorno”, em que uma investigadora coloca em dúvida a relação de Leigh Anne e sua família com Mike, levando à dificuldade final. Além disso, “o senhor dos dois mundos”, fase na qual o herói recebe créditos pelos seus feitos, é bem acentuada, quando Mike recebe convites de quase todas as faculdades dos Estados Unidos para uma bolsa de estudos.

O Vencedor

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Micky Ward é um lutador de boxe que, após uma sequência de derrotas, busca alavancar sua carreira. Sua mãe e meio-irmão, respectivamente, empresária e treinador, são o problema, já que não se importam com seu sucesso, apenas com dinheiro.

O cenário muda quando Micky, interpretado por Mark Wahlberg, conhece Charlene em um bar e os dois se tornam namorados. Essa passagem corresponde a “o encontro com a deusa” da jornada do herói, estágio não tão evidente nos outros filmes analisados. Sob influência da namorada, o boxeador percebe os abusos sofridos por sua família e fica desmotivado a lutar (“a mulher como tentação”), mas muda de ideia quando seu pai e a própria Charlene arranjam um novo empresário e treinador para ele. Com essa mudança, o lutador consegue obter vitórias em seus combates. O modo como o pai influencia diretamente no progresso da jornada constitui o estágio conhecido como “a sintonia com o pai”.

Assim, percebemos que o filme segue com precisão os passos da segunda parte da jornada do herói, “a Iniciação”, responsável por mostrar os obstáculos os quais o protagonista deve superar para conseguir o que quer. Dessa forma, ela é completada quando, após restaurar suas problemáticas relações familiares, Micky consegue o título dos Meio-Médios.

Invictus

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Nesse longa, o herói da história é François Pienaar, capitão da seleção sul-africana de rugby. No filme, vemos a cooperação entre o jogador e Nelson Mandela (Morgan Freeman), então presidente, para unir o povo de seu país na época pós-Apartheid. Assim, já fica evidente o papel de auxílio que Mandela desempenha durante a jornada.

Invictus exemplifica com clareza a primeira parte da jornada do herói, conhecida como “a Partida” pois percorre quase todas as suas etapas. Desde o início, com a chegada da Copa do Mundo de Rugby, o objetivo dos protagonistas fica estabelecido no estágio nomeado como “o chamado da aventura”. A partir daí, com interesses políticos, o personagem de Freeman motiva François, através de suas palavras e um poema inspirador, a liderar seu fracassado time rumo à vitória.

As duas últimas etapas da primeira parte da jornada – “a passagem pelo primeiro limiar” e “o ventre da baleia” – são contempladas na medida em que vemos, respectivamente, as dificuldades pelas quais os Springboks, comandados por François, devem passar para atingir seus objetivos, e o quê fazem para superá-las. Além da baixa qualidade técnica da equipe, o capitão precisa buscar o apoio da população negra do país, a qual os repudia. Para isso, os jogadores são obrigados a visitar favelas sul-africanas a fim de, com sucesso, democratizar o esporte. No final do filme, vemos o triunfo da equipe que consegue ser campeã do mundo.

Menina de Ouro

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A mudança de cenário ocorre em Menina de Ouro. De início, a jornada é seguida. Maggie Fitzgerald sonha em ser uma boxeadora e, para isso, procura o melhor treinador para ser seu mestre. Porém, ela é rejeitada por machismo, mas não desiste. Ela frequenta a academia todos os dias tentando conseguir apoio, porém quem se apresenta como guru não é Frankie, o treinador, mas Eddie (Morgan Freeman), o ex-astro do boxe.

Como apontado pelo personagem de Freeman, “boxe é sobre respeito” e é isso que Maggie procura. Ela não tem apoio da família e gasta cada centavo do que ganha como garçonete para treinar. Entretanto, com o tempo, Frankie aceita treiná-la e é isso que leva ao desenvolvimento de ambas as personagens.

Porém, a jornada muda de curso. Maggie, depois de virar uma boxeadora talentosa, sofre um golpe ilegal que a derruba em um banquinho, fazendo com que ela fique tetraplégica. É com isso que a “apoteose”, fase mais importante, é quebrada. A relação de Maggie e Frankie amadurece e eles se tornam quase pai e filha, mas o final não é feliz. Por isso, o longa dirigido, estrelado e produzido por Clint Eastwood se destaca no meio de tantos filmes de esporte.

Prova por contradição

Todavia, como diz Paganotti, “Essas histórias de derrota não contradizem a jornada do herói; na verdade, a fortalecem, pois mostram que o risco de perder é real, dando novo valor para essas trajetórias”.

Os cinco títulos analisados mostram que, apesar de tratarem de histórias muito diferentes entre si, seguem uma mesma linha de desenvolvimento. Superações, provações, desapontamentos e sucessos são elementos presentes em todos os filmes apresentados, independente do esporte e da variedade de personagens mostrados em cada um.

É o conceito do “monomito”. Ivan explica: “Campbell sugere que toda as narrativas míticas apresentam a mesma estrutura porque, na verdade, todas as histórias tratam de um só herói, em um só mito”. Ainda segundo o professor, as mudanças entre as tramas acontecem devido às diferentes realidades sociais e culturais nas quais estão inseridas, explicando as variações presentes em cada uma das histórias.

 

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