O basquete latino de Manu Ginóbili

Por Bruno Menezes

Quatro vezes campeão da principal liga de basquete do mundo – a NBA – e medalhista olímpico na mesma categoria esportiva. São façanhas que por si só já impressionam, mas há um detalhe que inflaciona ainda mais essas conquistas. Em um esporte no qual há a supremacia de jogadores norte-americanos sobre profissionais do resto do mundo, é raro pensar que estes possam ter qualquer espaço de destaque no cenário.

Apesar disso, Manu Ginóbili conseguiu superar todos os preconceitos e desvantagens advindas de sua origem latina para se tornar um dos maiores e mais respeitados jogadores de basquete do mundo.

As primeiras adversidades

A história do argentino nos esportes, quase como em um filme do gênero, começa cheia de obstáculos. O mais novo de três irmãos, todos profissionais do basquete, Manu era o que menos se destacava na família. Para ficar mais dramático, seu pai Jorge era um dos mais conceituados técnicos da cidade de Bahia Blanca, onde Ginóbili nasceu.

Conterrâneo do jogador e parceiro de equipe nas Olimpíadas de 2004, Pepe Sanchez relatou em uma entrevista para a ESPN a situação do argentino nos seus primeiros anos no esporte. Segundo ele, Manu não possuía o porte físico necessário para ter sucesso no basquete. Pequeno e frágil, era massacrado pelos outros jogadores e não conseguia espaço para jogar. “Ele ia para cesta, era esmagado, se levantava para chutar os lances livres, e voltava a ser esmagado mais uma vez”.

No entanto, além da evidente perseverança do jogador, também era possível notar nessa época traços de genialidade e criatividade, habilidades que viriam a ser as mais características de Ginóbili no futuro. E foi desse jeito que, quando seu corpo se desenvolveu, o argentino conseguiu iniciar uma carreira no basquete profissional.

Ginóbili jogou seu primeiro jogo pelos Spurs na temporada 2002-03 (Imagem: @darrenrovell)

Do menosprezo ao estrelato

O pouco espaço para estrangeiros na NBA foi o que marcou o início da experiência do jogador na liga norte-americana. “Eu não sabia que era o dia do Draft, para falar a verdade. Ninguém me disse que eu tinha chances de ser draftado, então eu nem considerei. Eu me lembro de acordar no dia seguinte e dizerem para mim que eu fui a 57a escolha”, contou Ginóbili em uma entrevista para o canal da NBA sobre o início de sua carreira no San Antonio Spurs.

Apesar de ter sido selecionado em 1999, o jogador assinou com a equipe texana apenas em 2002. Nesse meio tempo, jogou em solo italiano e começou a ascender no esporte principalmente através de seu desempenho com a Seleção Argentina.

A vinda de Manu para San Antonio foi marcada pela desconfiança de seus colegas de equipe. Apesar de ser considerado por muitos como o melhor jogador da Europa, isso parecia não ser suficiente para os americanos. “Eu vi Manu em um verão. Ele veio até mim e disse ‘Sou Manu Ginóbili e estou nos Spurs’. E eu pensei ‘Não, você não está’. Eu assumi que ele era outro experimento o qual eu nunca veria”, relembra Tim Duncan, companheiro de equipe do argentino nos EUA até 2016, na NBA TV.

Não demorou muito para que os outros jogadores do time passassem a respeitar Ginóbili. Sua dedicação e garra fora do comum nos treinos lhe renderam mais espaço na equipe. No entanto, seu estilo de jogo não lhe concedeu uma vaga como titular. Ao contrário, seu jeito explosivo e intenso de jogar basquete era perfeito para o papel de sexto homem, nome dado ao atleta que não faz parte do time titular, mas entra com frequência na partida. Desse modo, além de preservar seu corpo, ainda era o homem de referência na equipe sempre que saía do banco.

Mas não era apenas por sua garra que Manu era conhecido. Seus passes tão surreais surpreendiam até mesmo seus companheiros no San Antonio e são até hoje sua marca registrada. Foi assim que, ao lado de Tim Duncan e Tony Parker, o argentino maravilhou a todos com os Spurs e conquistou quatro títulos da principal liga de basquete do mundo. Dois deles, inclusive, em cima do badalado Lebron James.

O Big Three rendeu quatro títulos da liga para San Antonio (Imagem: Sports Illustrated)

Os Jogos Olímpicos de 2004

Antes de virar estrela na NBA, Ginóbili conseguiu atrair olhos de todas as partes do mundo com suas atuações pela Seleção Argentina de basquete. Junto com Luis Scola e Andres Nocioni, Manu compunha o que ficou conhecido como a Geração de Ouro do basquete argentino. Esse time conseguiu, em 2002, a medalha de prata do Campeonato Mundial da FIBA (Fédération Internationale de Basket-ball), mesmo com a ausência de Ginóbili, que havia sofrido uma lesão durante a semifinal.

Apesar disso, esse não é nem de longe o maior feito daqueles jogadores com a seleção. Nas Olimpíadas de 2004, em Atenas, o ala-armador de San Antonio liderou os argentinos em uma campanha que lhes rendeu o ouro. A conquista, inédita na época, continua sendo até hoje a única do país na categoria.

Além disso, torna a façanha ainda mais impressionante o fato de a equipe ter superado um enorme obstáculo nas semifinais. A Seleção dos Estados Unidos, eterna favorita em competições de basquete, não resistiu à garra e determinação dos sul-americanos e acabou sendo derrotada pelo placar de 89 a 81. Quem não acreditava no talento de Manu, agora já estava desiludido.

A conquista da Argentina ainda é a única de um país sul-americano na categoria (Imagem: Reprodução)

Aposentadoria?

Com 39 anos e depois de quinze temporadas na NBA, a carreira como jogador dos Spurs já caminhava para o seu final. No quarto jogo da final de Conferência contra o Golden State Warriors, a torcida aplaudiu em pé quando Manu foi substituído a poucos minutos do final da partida. Era sua última aparição nas quadras de San Antonio.

Ou pelo menos, era isso o que muitos acreditavam até dia 19 de julho do mesmo ano. Através do Twitter, o argentino confirmou a renovação de contrato com a equipe do Texas. “Seguirei vestindo a 20 por mais um tempinho. De volta com os Spurs por mais uma temporada”. Sendo assim, poderemos ver seus incríveis passes e incomparável força de vontade por pelo mais um ano.

1 Comment
Diego Esteves

O melhor jogador sul-americano de todos os tempos. Talento nato aliado a dedicação intensa. “Geniobili”!

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