De volta a 1968

Por Bruno Nossig

Colin Kaepernick e Eric Reid ajoelhados durante o Hino Americano. Atrás alguns jogadores com os punhos fechados

O esporte pode ser uma plataforma política. Apesar de muitos fãs e amantes do esporte não gostarem dessa afirmação, ela não deixa de ser verdade. Mandela provou isso para a humanidade na Copa do Mundo de Rugby de 1995, quando fez do esporte um meio para lutar contra o apartheid.

O esporte também é usado por atletas para garantir apoio ou repúdio a nação. O protesto dos corredores olímpicos Tommie Smith e John Carlos, deixou a comissão Olímpica atônita. Os medalhistas olímpicos fizeram a saudação dos Panteras Negras no pódio, abaixando a cabeça e erguendo o punho fechado. A manifestação repudiava a discriminação presente nos Estados Unidos, e buscava ampliar a discussão de igualdade racial. As ações dos corredores não foi aceita pela comunidade norte-americana da época, e os jogadores sofreram diversas críticas e ameaças de morte no retorno ao Estados Unidos.

O ato custou a medalha de ouro de Smith, a de bronze a Carlos e ambos foram expulsos da equipe de corrida americana. Apesar do Comitê Olímpico dos Estados Unidos ter lutado a favor dos atletas, o Comitê Internacional Olímpico foi forte e repudiou as manifestações. O ano de 1968 se tornou emblemático para as manifestações contra a discriminação racial e entrou para história dos Jogos Olímpicos. Mas, o mais importante, o ato evidenciou que o mundo do esporte não estava preparado para manifestações políticas.

Em 2016, uma nova onda de protestos nos Estados Unidos foi iniciada. O então quarterback do San Francisco 49ers, Colin Kaepernick,  permaneceu sentado durante o hino nacional dos Estados Unidos. O protesto foi feito por conta de dois casos diferentes em que cidadãos negros norte-americanos, Alton Sterling e Philando Castille, foram mortos pela polícia.

“Não vou ficar de pé para mostrar orgulho à bandeira de um país que oprime negros e pessoas de cor”,  Kaepernick argumentou. O jogador via sua manifestação como uma extensão do movimento Black Lives Matter, e manteve seu protesto em todos os jogos da temporada, apenas fazendo uma alteração. Em vez de permanecer sentado durante o hino nacional, ele decidiu permanecer ajoelhado, para não desrespeitar os veteranos de guerra.

O protesto foi forte e duro. Principalmente, para um país em que o discurso nacionalista sempre foi atraente e apaixonante, e que recentemente cresceu, chegando a eleger o atual Presidente Donald Trump. Foi dolorido para a imprensa, para o dono das equipes e principalmente para fãs que viam no domingo de futebol americano um protesto que mostrava que o país não era perfeito, e na verdade estava muito longe de o ser.

Mas apesar das fortes críticas, e até ameaças de morte (assim como sofreram os corredores de 1968) ,o jogador permaneceu ajoelhado. Ainda contou com o apoio de alguns jogadores  ao redor da liga, que viam razão no seu protesto e decidiram ajoelhar ao seu lado. O linebacker Brandon Marshall, do Denver Broncos, e o safety Eric Reid, do 49ers, ajoelharam-se durante o hino nacional. O protesto se espalhou para outros esportes, e envolveu a estrela Megan Rapinoe da liga de futebol feminino norte-americana, que manifestou-se da mesma forma.

Mesmo com o apoio de fãs, de alguns jornalistas e atletas, Kaepernick teve sua reputação manchada como precursor do protesto. O jogador desafiou os donos das equipes, e pior, o nacionalismo e com ele o “melhor país do mundo”.  Agora, em 2017, o preço do protesto no esporte começa a aparecer para o jogador.

Colin chegou a Free Agency de 2017 buscando o contrato após um ano em São Francisco. Mas, em um país em que resultado vêm primeiro, dessa vez ele está atrás do orgulho. Muitos jogadores foram contratados, mas as ofertas não vieram para Kaepernick. Ficar ajoelhado para a bandeira irritou muitos ao redor da liga, e isso tornou-se evidente com a falta de propostas do quarterback. Colin não é o melhor na liga  (na verdade não se pode afirmar que seja um dos melhores de sua posição), mas é um jogador que deveria estar na NFL. Não deveria ser um titular, mas pelo menos deveria receber a oportunidade de ser reserva de uma equipe.

O jogador teve uma temporada sólida, mas nos doze jogos em que foi titular a equipe ganhou apenas um. Ele obteve 2,241 jardas e 16 touchdowns. Foi interceptado quatro vezes, mas durante a carreira tem o segundo melhor interception rate da NFL, de 1.8, atrás apenas de Aaron Rodgers, titular do Green Bay Packers. Mas, o que diferencia Colin Kaepernick é a capacidade de correr, sendo considerado, nesse aspecto,  um dos melhores quarterbacks da NFL. Em 12 jogos ele correu 468 jardas e ainda fez dois touchdowns em corridas.

De fato os números do jogador não são brilhantes, mas a falta de propostas é, no mínimo, incoerente. O Arizona Cardinals, necessitando de um QB reserva decidiu por Blaine Gabbert, também do 49ers, que virou banco de Kaepernick durante a temporada passada. O Miami Dolphins, contratou Jay Cutler, mesmo com o jogador fora de forma. O Baltimore Ravens também precisava de um quarterback capaz de manter o alto nível, após a lesão do titular Joe Flacco. Mas a equipe preferiu apostar nos reservas do atual elenco, sabendo que os jogadores nunca tiveram uma performance de temporada ao nível de Colin Kaepernick. Jogadores com menor qualidade e talento que Kaepernick receberam ofertas, e muitos outros com pior reputação que a dele também estão em atividade.

Uma equipe ainda pode contratar Colin, ainda estamos no começo da temporada e algumas equipes já mostram problemas na posição de quarterback. Mas no país da liberdade, o protesto durante o hino nacional foi considerado exagerado, e poderá custar a carreira do jogador. Evidencia, também, que os Estados Unidos não superou o protesto de 1968.

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *