Jornalismo esportivo em debate na EEFE-USP

Por Ana Cipriano, Beatriz Gatti, Bruna Arimathea e Caio Mattos

Aconteceu no último dia 27 o II Workshop de Jornalismo Esportivo, realizado pela EEFUSP Júnior, empresa da Escola de Educação Física e Esportes da USP. O evento contou com duas palestras e duas mesas redondas intercaladas entre si. Nelas, foram abordados temas sobre os bastidores do esporte, assessoria de imprensa e a relação entre jornalismo esportivo e os diferentes meios de comunicação.

O workshop contou com a presença desde jornalistas experientes que atuam no meio televisivo até o representante de um canal do YouTube voltado para o esporte. “Achávamos que tinham pessoas interessantes que poderiam acrescentar nessas discussões, mostrar e dialogar com as pessoas que gerenciam o esporte com a mídia e fazê-lo crescer”, afirmou Katherine Monteiro, diretora de Marketing da EEFUSP Júnior. A integrante acrescentou que o evento permitiu que as discussões propostas trouxessem à tona questões pouco exploradas no mundo do esporte e do jornalismo, como o espaço ocupado pelas mulheres e pela comunidade LGBT em um ambiente ainda dominado por homens.

Imagem: Reprodução

Os bastidores do jornalismo esportivo

Gabriela Moreira (ESPN), na primeira palestra do workshop acerca do “Futebol além das quatro linhas: jornalismo investigativo e diversidade”, destacou a importância de se ter uma base mais ampla no jornalismo. “Tentem se formar jornalistas primeiro”, pontuou. Ela alertou que se concentrar em um tema específico, como o esporte, não é bom para o desenvolvimento na carreira.

A profissional comentou também sobre como a maior parcela de seu trabalho se resume na cobertura dos bastidores e na investigação de irregularidades no esporte, que vão além do campo, reforçando que o jornalismo esportivo não é apenas entretenimento. Ela recordou de sua reportagem que, em 2012, revelou o abuso de poder público pela então presidente do Flamengo e vereadora do Rio de Janeiro, Patrícia Amorim. A matéria expôs como a dirigente preenchia seu gabinete na Câmara Municipal da capital fluminense com membros do clube e familiares

A denúncia surgiu de um boato sobre Peruano, então membro de uma torcida organizada do Flamengo que, supostamente, recebia salário do gabinete de Patrícia Amorim. A jornalista conseguiu detalhes sobre nomes e salários dos envolvidos no esquema após dois meses analisando quase três mil documentos públicos. Além das dezenas de processos, Gabriela teve que conciliar a apuração com as coberturas rotineiras do noticioso. Concluiu que é necessário a dedicação pessoal com uma apuração dessa amplitude, pois não adianta “esperar que seu chefe te dê esse tempo”. Embora tenha recebido a confiança da ESPN, a repórter assumiu que sempre desconfiava se conseguiria descobrir os fatos sobre o caso.

O fato de ter realizado coberturas policiais antes de fazer parte do mundo esportivo fez com que Gabriela chegasse no ramo consciente das técnicas jornalísticas e “casca grossa” o suficiente para enfrentar os obstáculos impostos por ser mulher. A representatividade feminina no mundo dos esportes é reduzida nas mais variadas vertentes: desde a participação em comitês olímpicos até o incentivo tardio à prática de esportes.

A jornalista, formada pela PUC-Rio, também comentou sobre a presença LGBT no futebol. Após passar uma matéria que abordou a temática, ela defendeu que o futebol não deve ser só para os homens héteros, e o objetivo do jornalista, nesse sentido, deve ser “defender o interesse da minoria” e “fazer a sociedade esportiva mais diversa”.

Ao mostrar uma imagem de Alan Ruschel um dos sobreviventes da tragédia aérea do time da Chapecoense em novembro do ano passado sendo levado em uma maca, a profissional afirmou o porquê de ser jornalista: “para viver os acontecimentos”. Quando perguntada sobre a matéria a qual mais gostou de ter feito, ela respondeu com o caso da bailarina Jordana Moreira, divulgado no jornal Extra, do Rio de Janeiro. Em 2006, a jovem de 17 anos, residente do Complexo da Maré, foi aceita pelo Ballet Bolshoi, mas não podia bancar os estudos. Até que surgiram muitas pessoas dispostas a ajudá-la, incluindo Aguinaldo Silva, que na época da publicação queria ser identificado apenas como “um autor de novelas da Globo”.

Se havia começado abordando como uma mulher no jornalismo esportivo deveria ser  “casca grossa”, Gabriela encerrou a palestra discutindo os estereótipos que cercam a contratação de mulheres para o jornalismo esportivo. Ela afirmou que a escolha das repórteres era constantemente pautada em questões estéticas. Hoje, essa visão continua forte, mas já existe o reconhecimento de que a credibilidade e a competência do jornalista como apurador, analista e transmissor de notícia é o que realmente é valorizado. Como notou, na plateia, Paulo Calçade: “No final, só resta o conteúdo”.

Imagem: Gustavo Poio

As dificuldades no esporte brasileiro de se conciliar informação e entretenimento

A discussão inicial da mesa  “Jornalismo Esportivo: Informativo ou de Entretenimento”  foi a fronteira entre esses dois ramos da cobertura esportiva. Participaram do debate: Roberta Nina Cardoso (jornalista do blog e do canal de youtube Dibradoras), André Barros (cofundador do canal de youtube Desimpedidos), Renato Tortorelli (apresentador humorístico da Rádio Mix) e Paulo Calçade (comentarista esportivo da ESPN). Ary Rocco, professor da EEFE, foi o mediador.

Barros afirmou: “o Desimpedidos não tem compromisso nenhum com a notícia”. A mentira pode estar incluída no humor, mas sendo sempre clara. Com um público em média dos 13 aos 20 anos, o canal tem uma responsabilidade: “a gente acaba sendo formador de opinião”.

Enquanto Renato Tortorelli considerou a importante função do programa humorístico em “instigar”, Paulo Calçade reconheceu que é possível e nem tanto incomum o entretenimento ser um transmissor de informação mais eficiente que o próprio noticiário.

As restrições que o veículo impõe aos seus jornalistas também foi levantada pela mesa. Roberta Nina Cardoso destacou o papel fundamental da mídia independente, concentrada na internet.

Ary Rocco levantou a questão sobre como as entidades esportivas brasileiras se comunicam com o público. Críticas à incompetência delas perduraram durante toda a conversa. Roberta, cujos blog e canal de Youtube se dedicam a abordar a participação feminina no mundo do futebol, apontou a ignorância dos clubes para com as torcedoras e as jogadoras. Exemplo disso foi a falta de repercussão sobre o título da Libertadores feminina, conquistada pelo Corinthians no último dia 22. “Um tweet apenas”, lamentou a jornalista, que concluiu: “Desconhecimento gera desinteresse”.

Calçade deu continuidade ao afirmar que “os clubes não sabem o valor da marca”, comparando a eficiência dos times europeus em explorar seu potencial midiático. Os patrocinadores dos grandes europeus estão muito além dos estampados nas camisas. Já, aqui no Brasil, o mesmo poderia acontecer, mas não é a realidade. As equipes brasileiras não são midiáticas, ou seja, não sabem expor sua imagem. A consequência é o distanciamento desses clubes com os torcedores. Quando uma criança se diz torcedora do Chelsea (acima de qualquer clube brasileiro), como a mesa exemplificou, é preciso refletir sobre a situação do futebol nacional (tanto midiática quanto técnica).

As perguntas do público, as quais concluíram o debate dos palestrantes, se concentraram em um tema: compensa a divulgação de esportes com pouca demanda no Brasil? O “não” foi um consenso.

Na estruturação da mídia tradicional, é impossível sustentar os custos arcados com a cobertura se não for rentável. Já ao considerar a mídia independente, o prejuízo é, simplesmente, o baixo número de visualizações.

A identificação com determinado esporte é construída desde cedo, incentivado pela família, e caminha lado a lado com a formação do ser humano em si. Ademais, o acesso facilitado a notícias de determinada modalidade, que é motivado pela própria demanda de público, contribui para a construção de uma preferência esportiva nas pessoas.. Trata-se de uma questão cultural. Logo, despertar o interesse do público por novas modalidades que não possuem tanta visibilidade e não são tão valorizadas nos meios de comunicação e na cultura local é muito mais complicado. No caso do Brasil, o monopólio do futebol é inegável.

A especificação de veículos esportivos para determinado nicho também foi comentada. Barros exemplificou com seus três canais, que abordam modalidades específicas: Desimpedidos (futebol), Acelerados (automobilismo) e Fatality (e-sports). Na internet, pelo menos, já é uma tendência a particularização do conteúdo e do público alvo nas coberturas esportivas.

Imagem: Gustavo Poio

Um outro lado da imprensa: assessoria

Na segunda palestra do dia, o assunto exposto foi Assessoria de Imprensa. O evento contou com a presença de Heron Pereira, ex-assessor do Palmeiras e atualmente a serviço somente da equipe de tiro com arco do clube, a Palmeiras/Raycon. O assessor pontuou os diversos campos abarcados pela assessoria no âmbito esportivo e também apresentou as múltiplas atividades realizadas por um profissional da área, como as coletivas de imprensa, media training e releases.

Um tema muito discutido foi o da prevenção e o gerenciamento de crise. Em momentos de tensão, cabe ao assessor poupar ao máximo o atleta de uma exposição na mídia. Mesmo assim, há casos inevitáveis, em que a assessoria deve trabalhar para tentar prejudicar o menos possível.

O público-alvo da assessoria no futebol é o torcedor e sua relação com clube e jogadores é muito instável, a depender do momento da equipe. Por isso, segundo Heron, é papel do assessor monitorar as informações que circulam e o que se fala sobre seu cliente, buscando protegê-lo da melhor maneira cabível, ao mesmo tempo em que uma boa visibilidade seja garantida.

Quando questionado sobre manipulação de informação, Heron afirmou que é uma situação delicada, mas que é preciso considerar os efeitos que a divulgação de determinada informação traria para o público e para o cliente. “Há coisas que ficamos sabendo nos bastidores que a gente não pode divulgar. A ponto de presidente dar “piti” com técnico, rasgar contrato. Você fica sabendo, mas até que ponto é interessante para o torcedor saber disso? O torcedor tem aquela paixão, aquela coisa heroica em cima do atleta. Então você vai desmanchar isso por uma vaidade do cara?”, concluiu Pereira.

Acompanhando de perto o trabalho de arqueiros brasileiros, Heron lamentou que muitas modalidades olímpicas ainda estejam tão distantes dos olhos da grande mídia. E afirmou que também é função da assessoria que se busque abordar o esporte de formas alternativas a apenas resultados de jogos e partidas, para que o esporte olímpico seja emplacado para além do futebol. “Quando a gente consegue ajudar a contar uma boa história, principalmente dos esportes olímpicos, é o mais gratificante. Porque eles não têm muita visibilidade”, finalizou o assessor.

A Comunicação no rádio, na TV e na internet

Com o tema “Diferenciais do Jornalismo Esportivo em Diferentes Meios de Comunicação”, a última mesa redonda do evento contou com Leonardo Lourenço (G1.com), Marcelo Damato (Lance!), Roberto Lioi (Rádio CBN) e mediação de Luciano Maluly (ECA/USP). O pontapé inicial da discussão foi dado com a seguinte pergunta: quais as principais diferenças entre as coberturas nos meios digitais e analógicos?

Ao responder esse questionamento, Marcelo Damato pontuou que é importante entender como o jornalismo mudou ao longo dos anos. Segundo ele, as relações entre jornalistas e atletas era quase de caráter familiar, isto é, sem intermediários digitais para mediar a comunicação. Essa menor exposição do jogador nas mídias fazia com que esse tipo de amizade entre fonte e entrevistador surgisse com mais facilidade, o que não acontece atualmente.

A internet possibilitou o ‘empoderamento do leitor’, gerando uma nova forma de trabalho. Com uma pluralidade de informações, a notícia é dada a todo momento, por todos os tipos de fonte, e se faz necessária uma boa apuração para entregar um conteúdo diferenciado e de qualidade para essa nova demanda de público.

Em relação à propagação do jornalismo esportivo, Roberto Lioi destacou que o contato constante com o público é fundamental, seja na rádio ou nas mídias visuais. Trazer entretenimento com o esporte também é a alternativa para atrair mais público para o segmento: “As pessoas hoje não buscam só informação. Querem algo a mais. [É necessário] passar um pouco mais do que as pessoas estão falando na rua”, afirmou o radialista.

Quando perguntados sobre os pontos que unem o jornalismo esportivo entregue ao público nas diferentes plataformas de mídia, a mesa foi unânime em apresentar a notícia em si como a conversão da preferência dos espectadores. A maneira como a informação será entregue ainda corresponde ao principal fator que faz a diferença na audiência de determinada plataforma.

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