O mal do século XXI: a depressão no mundo do esporte

Por Jade Rezende

Chega de forma silenciosa e pode ser devastadora. Essa é depressão, doença tida como o mal deste século, junto à ansiedade e outros problemas de ordem emocional. O debate sobre saúde mental tem sido levantado com maior frequência nos últimos anos, apesar de ainda ser um tabu para muitas pessoas. Essa discussão é importante para que aqueles que sofrem de algum desses problemas saibam como procurar ajuda.

Foi assim que aconteceu com Nilmar, atacante do Santos, que foi diagnosticado com depressão em setembro deste ano. O jogador comunicou ao time que estava doente e suspendeu seu contrato para passar por um tratamento. O atleta é um retrato de como o mundo do esporte pode ser uma ameaça para a saúde mental.

Nilmar procurou o time e relatou estar se sentindo deprimido (Imagem: globoesporte)

A explicação médica da depressão é o desequilíbrio das quantidades de produção e circulação de substâncias como serotonina ou dopamina – relacionadas ao prazer e à felicidade – no cérebro. Para a psicanálise, entretanto, a depressão pode ser um sintoma, como explica Taís de Oliveira Nicoletti, psicanalista e mestranda em psicologia clínica na USP: “A depressão não é necessariamente uma doença. Ela pode, muitas vezes, ser um tipo de estado emocional necessário e adequado aos momentos de dificuldade”.

Ela ainda conta que negar o sentimento de tristeza vindo de traumas ou momentos difíceis (situações frequentes no mundo do esporte) pode levar a tipos de depressão chamados de melancólicos, caracterizados por uma aparente normalidade de comportamento, sendo muito mais difícil de identificar e tratar. Segundo a psicanalista, todavia, a capacidade de cada atleta de lidar com isso – somada a ajuda emocional que eles podem receber – é que determinará o fato da depressão ser apenas um estado de sofrimento passageiro ou um adoecimento de fato.

Exaustão, lesões, estresse e derrotas são alguns desses momentos difíceis que podem levar um esportista ao quadro de depressão. A nadadora brasileira Poliana Okimoto, por exemplo, passou por meses em estado depressivo após ter que deixar as Olimpíadas de Londres, em 2012, devido a uma hipotermia. Nessa mesma edição dos Jogos, a judoca Rafaela Silva foi eliminada nas oitavas de final e sofreu duras críticas do público, o que a levou a ter depressão e abandonar o esporte por algum tempo.

Para os atletas profissionais, principalmente, a exposição social é um ponto de desvantagem para a saúde mental. “A idealização e a cobrança excessivas não são apenas internas (fantasias de ‘quem eu deveria ser’ ou ‘do que eu deveria ser capaz de fazer’), mas também externas, e acontecem no mundo real e são partilhadas por um grande número de pessoas, o que aumenta ainda mais a pressão sobre o sujeito”, explica Taís.

Ao pensar nesse lado da vida dos esportistas, o médico psiquiatra Dr. Arthur Guerra iniciou um programa de acompanhamento psicológico de atletas em sua clínica. “Atletas amadores ou profissionais estão passíveis ao sofrimento psíquico como qualquer pessoa. O acompanhamento da saúde mental do atleta […] é tão importante quanto as preparações física, técnica e tática. Um atleta bem preparado mentalmente tem maiores chances de conseguir render seu potencial físico”, explica.

Ele também aponta que as situações mais difíceis para os esportistas profissionais são as derrotas, lesões e a pressão por resultados, que podem levar desde uma ansiedade até a depressão. Já para os amadores, além da busca por um bom desempenho, há a exigência de equilibrar as diferentes partes da vida: trabalho, família e esporte. Trata-se de um desafio que pode desencadear em estresse e distúrbios de ansiedade.

(Imagem: psicologianoesporte)

Assim como a psicanalista, Dr. Arthur fala sobre como cada um encara essas situações de forma diferente. “A maneira como o atleta responde ao contexto em que está inserido é muito particular e depende de padrões comportamentais, histórico de vida e da sua carga genética”, conta. Ele ainda diz que muitos buscam o atendimento em sua clínica porque perceberam uma queda de rendimento que pode ter acontecido por causa psicológica. “Ou estão tomados por ansiedade e estresse e querem ajuda para lidar com estes fatores ou estão passando por uma fase da carreira em que gostariam de evoluir suas habilidades psicológicas para atingir seus melhores resultados”, relata.

Os atletas que procuram o acompanhamento em sua clínica têm entre 14 e 50 anos e praticam, em sua maioria, esportes individuais, como natação, tênis, hipismo, triathlon, lutas, atletismo, crossfit e corrida de rua.

Os primeiros sinais da depressão podem ser sutis, começando com um afastamento de atividades antes praticadas com prazer. “O sujeito deprimido recolhe sua libido e se afasta de tudo o que está fora do trabalho, dos relacionamentos, das atividades produtivas e criativas. Ele tem dificuldade em lidar com o futuro, com os planos e se vê incapaz de desejar algo para si”, explica Taís.

No esporte, isso pode se traduzir em uma queda de rendimento e na perda de motivação para treinar – ou até ao contrário, com um treinamento de forma compulsiva. Segundo Dr. Arthur, alterações significativas no apetite ou no sono, problemas cognitivos, queda na auto-estima, sentimento de fracasso e de impotência recorrentes podem ser sintomas da depressão.

“Uma sobrecarga de treinamento mal adaptada ao atleta pode gerar alterações orgânicas significativas […] e desencadear sintomas de depressão”, diz Dr. Arthur (Imagem: ciclofaixaribeirão)

Allison Schmitt, nadadora americana, começou a sentir alguns desses indícios após os Jogos Olímpicos de 2012. Exaustão física e pânico foram alguns dos sintomas sentidos, o que quase a levou ao fim de sua carreira nas piscinas. Após o suicídio de sua prima em 2015, Allison começou um tratamento com psicólogo e passou a falar do assunto de forma pública. Hoje, a atleta está recuperada e realiza treinos e competições normalmente.

“É difícil sair de uma depressão sozinho. Mesmo quando amigos ou familiares se dispõem a ajudar, se a questão for muito íntima, pode haver uma grande inibição de se falar sobre ela. Nesse caso, a figura do terapeuta, que é neutro, isento e vem de fora de seu círculo social, pode ser fundamental. O convite à fala na terapia é um convite à reflexão interna em um lugar de acolhimento e proteção, onde se pode iniciar um processo de desvendamento das questões psíquicas que subjazem o sintoma depressivo”, conta Taís sobre a importância da busca de ajuda profissional.

Diversos atletas passaram por um quadro de depressão e hoje estão recuperados. Diego Hypolito (ginástica), Michael Phelps (natação), Leonardo Domenech (handebol) e Mirella Coutinho (polo aquático) são alguns dos exemplos que sofreram com as grandes pressões do mundo do esporte, mas que se recuperaram por meio dos devidos tratamentos. Alguns retomaram a prática de suas modalidades, outros não o fizeram para não colocarem a saúde mental em risco novamente.

Após superar a depressão, Diego Hypolito subiu ao pódio nos Jogos Olímpicos de 2016 (Imagem: AP Photo/Dmitri Lovetsky)

Se praticado de forma saudável, de acordo com Dr. Arthur, o esporte pode ser uma ótima forma de obter benefícios físicos e psicológicos. “A medida certa da atividade física é aquela que traz prazer, bem-estar e saúde”, finaliza.

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