Hello, bola!: um giro sobre o beisebol brasileiro

Por Henrique Votto

No país do futebol, um esporte que ganha cada vez mais espaço nas manchetes é o beisebol. Desde 2012, o Brasil vem alcançando postos antes inimagináveis no quadro internacional. A partir do momento em que Yan Gomes surpreendeu e se tornou o primeiro brasileiro a atuar em uma partida da Major League Baseball, o esporte não parou de evoluir no solo nacional. Depois dele, outros dois brasileiros, André Rienzo (2013) e Paulo Orlando (2015), pisaram nos gramados da elite americana pela primeira vez, sendo este último campeão da World Series com o Kansas City Royals.

O jovem Eric Pardinho é a mais nova sensação do beisebol brasileiro e é o símbolo de uma geração que promete feitos enormes no esporte. Com apenas 16 anos, o atleta já é considerado o melhor jovem arremessador não-americano do mundo, segundo levantamentos da Major League Baseball (MLB) e da Baseball America. Não por acaso, fechou um contrato milionário de seis anos com o Toronto Blue Jays ㄧ R$ 4,6 milhões, o maior montante já recebido por um atleta nacional ㄧ juntando-se a outros três brasileiros que também acertaram transferência para os Estados Unidos na última janela: Heitor Tokar, Victor Coutinho e Christian Rummel Pedrol.

Os resultados retratam a evolução recente do beisebol no Brasil, que recebe os primeiros grandes olhares e investimentos da liga norte-americana. Com programas de treinamento para atletas e cursos de capacitação para treinadores, a MLB e a Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol (CBBS) agem em conjunto para auxiliar os clubes e incentivar o esporte no país, onde a prática ainda possui caráter amador (à exceção de um breve período de atividade semiprofissional nas décadas de 60 e 70).

Pardinho tem tudo para ser o novo nome do beisebol brasileiro (Crédito: MLB/Divulgação)

Os agentes da evolução – Cooper Clube

Desenvolver o beisebol no Brasil não é uma tarefa simples. Faz parte do cenário do país lidar com a carência de recursos e de apoio do governo, além do baixo grau de popularização do esporte. Mesmo assim, federações e clubes, tais como o Coopercotia Atlético Clube, localizado na cidade de São Paulo, trabalham para reverter esse cenário e fazer o esporte do taco e da bolinha crescer no país.

Com 75 anos de história, o Cooper é um dos mais tradicionais clubes da modalidade no Brasil. Teve papel importante, inclusive, na fundação da Federação Paulista de Beisebol e Softbol (FPBS), em 1946 ㄧ a primeira entidade organizadora do esporte em terras brasileiras. Familiar e de origem japonesa, a agremiação assume como sua missão cotidiana a formação de cidadãos críticos e honestos por meio da disciplina da cultura oriental. Atualmente, trabalha com 120 famílias, cerca de 100 jovens, e possui equipes em todas as categorias ㄧ do T-bol (6-7 anos) ao Adulto ㄧ dentro do seu Departamento de Beisebol e Softbol.

A linha principal do clube é desenvolver o estilo japonês do jogo, que se caracteriza pelo uso preponderante do corpo no movimento para virar o taco e para arremessar a bola, ao contrário da predominância da força bruta no modelo norte-americano, explica Hirokazu Nitta, diretor do departamento. “Hoje, na parte técnica do beisebol, existe uma mistura muito grande do estilo americano e japonês. Eu, como diretor, estou trazendo técnicos da JICA (Japan International Cooperation Agency). Ela faz parte do consulado japonês e manda aqui para o Brasil voluntários que ensinam beisebol”.

No Cooper, a introdução do jovem ao beisebol começa desde cedo (Imagem: Henrique Votto)

O buraco é mais embaixo

O baixo apelo popular do beisebol no Brasil é, acima de tudo, um dilema histórico. O esporte emplacou no país, pelas mãos da comunidade japonesa imigrante, após a tensão da Segunda Guerra Mundial, período de grande perseguição do governo Vargas aos países do Eixo. Somente após esse momento é que surgiram as primeiras entidades e competições oficiais.Sua prática permaneceu por muito tempo limitada ao círculo das famílias orientais, as quais possuíam (e ainda possuem) forte identificação cultural com o beisebol. Consequentemente, ficou centralizado nos estados de São Paulo e Paraná, principais destinos dos imigrantes nipônicos, e não se difundiu para muito além da região.

Essa realidade muda aos poucos, já que o esporte vem conquistando uma boa base de adeptos com a transmissão da MLB pelos canais ESPN e com os trabalhos de divulgação das entidades locais e dos jogadores brasileiros da liga americana. Segundo a CBBS, já são mais de 30.000 praticantes, 120 times espalhados pelo Brasil e algo em torno de 55 campeonatos nacionais e internacionais por ano. Ainda assim, faltam espaços públicos apropriados para o desenvolvimento da atividade, que ainda se concentra em poucos clubes particulares, impedindo a livre prática.

O quadro da escassez de recursos é também preocupante, pois prejudica significativamente os projetos de estruturação e massificação do esporte no Brasil.  O sonho do profissionalismo, da ampliação e potencialização dos torneios e da popularização do beisebol é refreado pelo governo, ou melhor, pelo sumiço evidente deste quando se trata de investimentos. Colaborações ou subsídios são muito raros, seja para fomentar projetos ou adquirir equipamentos para os clubes.

Mesmo com a recente reentrada do esporte na modalidade olímpica, a CBBS não recebeu o repasse do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) neste ano. Em reportagem à Gazeta Esportiva, Jorge Otsuka, presidente da CBBS, chama a atenção para as consequências da decisão do COB. “A ideia é fazer uma liga semiprofissional disputada em, no mínimo, três meses. Se não conseguirmos um estádio iluminado, fica impossível a disputa de um torneio dessa natureza. É difícil realizar a liga se a gente não tiver apoio financeiro do Comitê Olímpico e do próprio Ministério do Esporte”.

Ainda na mesma reportagem, Thiago Ramos, olheiro do Houston Astros, destaca o longo caminho para que o beisebol nacional evolua tecnicamente. “Primeiro temos que organizar o beisebol amador. O nível técnico está anos-luz do que seria na Venezuela, nos Estados Unidos e até no México. A gente tem que ir passo a passo, devagar. É importante ter a liga profissional, mas antes disso a gente tem que estruturar as ligas amadoras que temos hoje, passar para ligas semiprofissionais com alguns atletas remunerados e daí sim passar para profissional”.

O Mie Nishi, localizado em São Paulo, é o único estádio público de beisebol do país (Imagem: Divulgação/Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação)

Em ascensão

Nos últimos tempos, o mercado brasileiro recebeu atenção especial da liga americana. Programas como o MLB Coaching Development Program, para capacitação de treinadores, e o Elite Camp, que consiste em duas semanas de treinamentos monitorados para jogadores selecionados pelas federações, têm feito bastante sucesso. Tanto que, neste ano, a MLB resolveu dar sequência aos projetos e entrar de maneira definitiva no país, com a chegada da Academia MLB Brasil.

O programa para jogadores amadores de destaque foi inaugurado em janeiro deste ano em Ibiúna-SP, no Centro de Treinamento Yakult, que, desde 2000, é o ‘quartel-general’ do esporte no país. Durante o ano inteiro, os jogadores recebem treinamentos e bolsas de estudo integrais, além de alimentação e alojamento custeados pela MLB e pela CBBS. Jovens como Pardinho, por exemplo, foram descobertos pelas equipes americanas durante o projeto. “Isso tudo é um grande incentivo para o nosso esporte. A gente tira o chapéu para os americanos. O nosso próprio governo não ajuda e os americanos ajudam”, afirma Nitta.

É possível afirmar que a tendência, ‘apesar dos apesares’, é de crescimento. Conforme relatado pela ESPN, a temporada regular da MLB em 2014 atingiu 2,4 milhões de espectadores no Brasil, um aumento de 93% em relação ao ano anterior. E não é só aqui que o beisebol registra recordes na transmissão televisiva. Nos Estados Unidos, a World Series de 2016, que assinalou o fim do jejum de 108 anos do Chicago Cubs, teve uma audiência de 40 milhões de espectadores, a maior desde 1991.

O esporte vai conquistando a juventude brasileira aos poucos, tendo inclusive invadido o ramo universitário. Faculdades da USP como a FEA, Poli, Medicina e Farmácia, entre muitas outras, possuem equipes na modalidade e disputam torneios no estado. No entanto, uma questão ainda é clara: o beisebol precisa se expandir para além dos muros dos clubes particulares.

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