Mais que negócios

Por Renato Navarro

Sábado chuvoso, três horas da tarde. Ali estava eu, sentado na arquibancada da torcida visitante, cujo portão de acesso foi o primeiro que vi enquanto corria da chuva que banhava a Rua Javari e toda a Mooca. Ao meu lado, alguns olheiros do time da casa e de seu oponente estavam atentos. Com suas câmeras em mão, observavam a partida entre Juventus e RB Brasil válida pelo Campeonato Paulista Sub-20. O time da casa perdeu de goleada — quatro a um para ser mais preciso. No entanto, o que despertou minha atenção de fato foi a torcida presente no outro lado do campo.

Algumas dezenas de juventinos acompanhavam a partida vidrados, com seus uniformes grenás e todo repertório de ofensas, aplausos e gritos típicos de uma partida de futebol. Como não havia torcedores me fazendo companhia até então, resolvi me juntar aos apoiadores da equipe da casa após o intervalo. Gente de toda sorte ali estava: homens, mulheres, crianças, idosos, casais, famílias inteiras e pessoas desacompanhadas, como eu. Apesar do calendário curto e do pouco espaço na mídia, eles conheciam seus jogadores, criticando e elogiando um por um — quando não o faziam com a equipe toda.

Juventinos observam ataque do time (Imagem: Renato Navarro)

Ser testemunha de toda aquela disposição e envolvimento da torcida em um dia de clima tão ruim, em um jogo das categorias de base e com um placar tão adverso me deixou com alguns questionamentos: O que define a grandeza de um time de futebol, afinal de contas? E vou além: o que há de especial em torcer para aqueles considerados grandes, de massa, em contraponto aos menores?

Vivemos na era do futebol como produto. As equipes são cada vez mais geridas como empresas, o que também implica na divulgação de sua marca e captação de torcedores — ou consumidores — longe de seus domínios. Vale dizer que isso já ocorre há tempos graças à presença massiva dos rádios e televisores nos lares brasileiros, levando aos quatro cantos do país as partidas e notícias de clubes do Sudeste, especialmente do eixo Rio-São Paulo. O apoio a times regionais, dessa forma, acaba sendo uma espécie de resistência à perda de identidade local, uma forma da torcida preservar as tradições e orgulho de onde vive, de suas origens.

Os pequenos também se opõem aos maiores no acesso da torcida aos jogos. Clubes de grande projeção cobram valores astronômicos para que seus fãs compareçam às partidas, fazendo com que muita gente sem condição financeira, ou que não aceita ser explorada, acabe sendo excluída dos estádios. Por outro lado, as partidas dos times ditos menores têm portões abertos, ou então ingressos a preços módicos e próximos da realidade econômica brasileira, o que torna seus jogos relativamente atrativos e simpáticos.

Há uma série de questionamentos recorrentes no futebol quando torcedores se propõem a falar do tamanho de agremiações. Afinal, quantos títulos de grande expressão elas conquistaram ao longo de sua história? Quais são? Foram vencedoras de torneios recentemente? Em grande parte dos casos, a resposta para essas perguntas é negativa. Mas qual equipe, mesmo dentre as que vieram a ser bem-sucedidas, nunca enfrentou um jejum de títulos? Qual delas jamais atravessou uma crise esportiva ou financeira? Imagine se sua torcida a abandonasse nesses momentos de baixa, onde elas estariam agora? Não se pode ter certeza, mas provavelmente não teriam atingido o patamar no qual se encontram.

Torcedor mirim da Portuguesa acompanha partida no Canindé com a camisa do falecido craque Dener (Imagem: André Ruoco/R7)

Outro ponto importante: não há clube que já tenha nascido com uma sala de troféus cheia. Os triunfos ocorrem ao longo do tempo, mas antes disso o apoio e motivação são extremamente necessários. Há, inclusive, diversos exemplos de como a seca de títulos só aumentou o apoio a uma equipe, como no famigerado caso do Corinthians entre 1954 e 1977.

A Macaca lutava por seu primeiro título paulista, enquanto o Timão buscava a quebra do jejum de 23 anos. Resultado: mais de 146 mil pessoas no segundo jogo da final do Paulista de 1977, recorde de público do Morumbi (Imagem: Acervo/Gazeta Press)

O elo entre um clube de futebol e sua torcida é baseado na identificação, na paixão, na forma como cada jogador representa aqueles que estão nas arquibancadas. Pode até ser romantismo de minha parte, mas acredito que essa relação é muito mais próxima e verdadeira quando um time não vira uma simples marca angariando clientes. Talvez seja mais prazeroso cultivar o afeto quando seu orçamento te permite ver os jogos ali, presencialmente, mesmo após um dia cansativo de trabalho. Talvez gostar de um time de verdade envolva algo muito mais profundo que ficar feliz com as finanças ou taças ostentadas. Talvez, os pequenos e tradicionais, bem como seus apoiadores, carreguem em si a essência do que é o futebol.

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