Falta de visibilidade para as mulheres: a diferença de renda entre gêneros no esporte

Por Jade Rezende

No mês de setembro, a primeira mulher a treinar a seleção brasileira feminina de futebol foi demitida e substituída por Vadão, antigo técnico do time. A demissão de Emily Lima fomentou o debate sobre a atuação das mulheres no esporte, que vai além da ocupação de cargos. Essa discussão também se estende à remuneração de atletas, um dos grandes empecilhos da igualdade de gêneros no mundo esportivo.

Na sétima edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino que aconteceu em 2015, por exemplo, a seleção dos Estados Unidos ー que foi tricampeã ー levou um prêmio de US$2 milhões da Fifa. Já a seleção masculina alemã, campeã na copa de 2014, recebeu US$35 milhões pela sua vitória, valor 17,5 vezes maior do que o recebido pelas mulheres.

Mesmo conseguindo um grande número de audiência (26,7 milhões de televisões acompanharam a final da Copa) e gerando US$20 milhões a mais em receita do que o time masculino em 2015, as atletas americanas recebiam um salário muito inferior ao dos homens. Por isso, no ano seguinte, cinco jogadoras da seleção dos Estados Unidos deram início a uma ação contra a US Soccer (federação de futebol norte-americana) para brigar por maior remuneração e melhores condições de trabalho. Como resultado de um ano de luta, em abril de 2017 a seleção feminina assinou um novo contrato com a federação e passou a receber salários mais altos. Esse acontecimento foi a perfeita ilustração de como o machismo pode ser o único e exclusivo culpado da diferença de remuneração entre homens e mulheres.

Seleção americana venceu o Japão e conquistou a sua terceira Copa do Mundo (Imagem: Reprodução/Trivela)

Essa discrepância nos valores também é vista no vôlei. Na Liga Mundial do ano passado, a equipe masculina brasileira recebeu US$500 mil pelo segundo lugar. Já a equipe feminina do Brasil, que foi campeã, levou apenas US$200 mil como prêmio. Sobre esses números, a ex-jogadora da seleção feminina de vôlei, Fofão, comenta: “Eu acho que é uma luta constante das mulheres, se igualar nesse tipo de situação. Porque a competição que a gente participa é tão sacrificante, tão difícil quanto a dos meninos.” Ela ainda diz não entender a diferença desses valores, uma vez que é o mesmo esporte, logo, são feitos os mesmos esforços. A ex-jogadora também não acredita que exista uma diferença de popularidade entre o vôlei feminino e o masculino que justifique a incoerência na remuneração, principalmente depois da conquista do primeiro ouro olímpico das meninas. “Acho que o vôlei feminino, ainda mais depois da medalha de 2008, deu um boom muito grande na história da mídia e em termos de público e de patrocinador”, conta.

Fofão acredita, então, que essa diferença de renda está diretamente ligada ao sexismo que permeia o esporte. “Existe aquela coisa do machismo, de que eles são homens e têm que ganhar mais. Como em qualquer trabalho normal, sempre valorizam mais o homem.” Em termos de popularidade e qualidade, ela pensa que já existe uma igualdade em relação ao masculino, mas que isso não consegue se tornar uma realidade em termos de valorização financeira. “Mas isso acontece mesmo. Acho que a mulher, por mais que prove que tem condições, ainda sofre um pouquinho com isso”, diz a ex-jogadora.

Fofão jogou pelo Brasil em cinco edições consecutivas das Olimpíadas (Imagem: Reprodução/Votunews)

Em alguns casos, porém, o desnível da remuneração realmente acontece de acordo com patrocinadores, e patrocinadores são conquistados a partir da audiência. Mas será que os grandes veículos e meios de comunicação, com toda a sua influência, se esforçam para aumentar a visibilidade do esporte feminino?

O futebol para as mulheres, junto a outras modalidades, só foi permitido por lei no Brasil há menos de 40 anos. Mesmo deixando de ser proibida, a prática desses e de outros esportes por parte das mulheres foi e ainda é negligenciada pela mídia. Além disso, em muitas das vezes em que é trazido à tona, o esporte feminino é abordado de forma comparativa ao masculino. Dizer que uma jogadora X corre como um jogador Y, por exemplo, explicita que as habilidades no esporte são associadas somente aos homens. Fazer comentários sobre a aparência das atletas também é, infelizmente, uma forma de abordagem comum do esporte feminino e isso acontece a todo momento. Um desses episódios ocorreu por parte da própria Fifa em 2014, quando Joseph Blatter, o então presidente da federação, sugeriu que as jogadoras de futebol usassem shorts mais justos para atrair mais audiência e popularizar mais a modalidade.

Isabela Ramona, baiana e jogadora de basquete da seleção brasileira, pensa que a mídia tem um papel muito grande na luta pelo incetivo da valorização do esporte feminino. “O Brasil é um país completamente movido pela mídia, então a partir do momento em que o esporte feminino for mais falado e mostrado por tal meio, será mais conhecido e isso é um grande passo para a sua valorização”, explica.

Isabela passou pelo clube espanhol Zamarat e hoje joga pelo Valencia (Imagem: Olimpíada Todo Dia)

Ela também diz acreditar que se a remuneração dos atletas fosse igual independentemente do gênero, o basquete feminino e todas as outras modalidades teriam mais força em todo o mundo. Em 2016, a jogadora deixou o Brasil para atuar na Espanha e se surpreendeu com a diferença de tratamento que o basquete feminino recebe por lá. “A impressão que tive logo que cheguei é que aqui na Espanha é tudo mais profissional, o feminino não é tratado como amador”, finaliza.

 

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