Pequenas e fortes, altas e magras – por que ginastas são tão diferentes?

Por Juliana Santos

Nas Olimpíadas de 2016, a ginástica artística foi um dos esportes mais acompanhados pelos brasileiros, chegando ao oitavo lugar em audiência, atrás apenas dos jogos de futebol da seleção brasileira e das cerimônias de abertura e encerramento.

Enquanto o Brasil assistia e se familiarizava com o esporte, surgiu uma dúvida que com certeza já foi assunto nas casas de todos os telespectadores: por que as ginastas artísticas são tão baixinhas?

De fato, a altura das atletas surpreende. Alguns exemplos de destaque são as ginastas da equipe feminina chinesa, que até tiveram a idade questionada por boa parte do público, por terem a altura reduzida e apresentarem corpos de aparência pré-púbere. Também, temos a querida Flávia Saraiva, que chamou atenção com seus 1,33m, sendo a ginasta de menor altura dos jogos ーo que não a impediu de ganhar o 5º lugar na trave e receber elogios da estrela Simone Biles.

A mesma Simone resumiu o drama das ginastas artísticas nesse tweet:

“Me sentindo extremamente baixinha aqui na Vila Olímpica com todos os outros atletas”. (Reprodução/Twitter)

A surpresa maior vem quando assistimos a uma outra modalidade: a ginástica rítmica. O esporte, que ainda tem apenas ginastas mulheres nas Olimpíadas, apesar de compartilhar da mesma classificação da ginástica artística, é extremamente diferente. Com um foco maior na expressão artística, nos movimentos coreografados e no manejo de aparelhos móveis. Sendo tão distinto de sua prima mais popular, a ginástica artística, as ginastas também tem uma diferença gritante: a média de altura é entre 1,55 e 1,65m, com algumas atletas tendo tamanho superior a 1,70m. Elas também são significativamente mais magras e com membros inferiores e superiores mais longos, o que as faz parecer ainda mais altas.

Com toda essa diferença entre as ginastas, começamos a pensar: o que as faz apresentar esses extremos corporais? Será que o treinamento das ginastas artísticas as impede de crescer, enquanto o das rítmicas, não? 

Vamos descobrir mais sobre os efeitos do treinamento, e da genética, nos corpos das ginastas a seguir ー e pode não ser tão simples quanto parece.

Diferentes modalidades, diferentes atletas

A ginástica artística é um esporte que envolve força, equilíbrio, explosão e acrobacias. Nela, atletas trabalham com aparelhos estáticos (ou relativamente estáticos, no caso das barras assimétricas), grandes e resistentes. O treinamento é baseado,principalmente, em exercícios de força, movimentos acrobáticos e flexibilidade (esta, em menor escala para os homens). O tipo físico mais comum desta modalidade é composto por baixa estatura, troncos curtos, braços curtos e muito músculo. Ambos os sexos apresentam quadris estreitos e ombros largos.

Já a ginástica rítmica mistura dança, acrobacias e contorcionismo. Os aparelhos utilizados são pequenos, leves e móveis. O treinamento é composto por muitas horas de ballet ー o que também pode ajudar a explicar o tipo físico das atletas ー, grande ênfase em flexibilidade, equilíbrio e manejo dos aparelhos. O tipo físico mais comum tem estatura mediana, braços e pernas longos, músculos longos e menos pronunciados que nos ginastas artísticos; se assemelha muito aos corpos de bailarinos profissionais.

A vida olímpica é um fator

Ginastas de alto nível, assim como todos os atletas dessa categoria, estão constantemente expostas ao stress físico e psicológico. Estes fatores, juntamente com a nutrição do esportista, podem ter um grande impacto no desenvolvimento físico e nos hormônios sexuais.

A maioria das ginastas rítmicas começam a treinar com 6 ou 7 anos; as artísticas, ainda mais novas, começando até com 4 anos. As competições geralmente começam um tempo depois, quando a criança tem em torno de 8 anos, e nesse momento algumas já treinam por mais de 15 horas por semana. Este regime intenso de treinamento aumenta com a idade, mas os efeitos só serão percebidos quando a criança atinge a fase na qual deveria entrar na puberdade ー que acontece de maneira diferente para as atletas.

No entanto, mesmo antes do treinamento, a medicina já identifica alguns fatores que fazem uma ginasta; entenderemos a seguir.

Genes da ginástica

Um estudo da Universidade de Milão, Itália, demonstrou a prevalência de um perfil genético característico entre ginastas rítmicas de alto nível. De acordo com os resultados, estas atletas representam um grupo geneticamente selecionado que possui maior frequência dos alelos ADRB2 e FTO, ligados a um baixo índice de gordura e massa corporal, e também o genótipo COL5A1 CT, ligado à hipermobilidade das articulações, mas também de hiperextensão do joelho, que é uma causa comum de lesões.

Outra pesquisa, desta vez da Universidade de Patras, Grécia, acompanhou ginastas rítmicas desde os 12 anos. Já nessa idade, as ginastas rítmicas estavam dentro dos 50% da população de maior estatura.

A anatomia de ginastas rítmicas. (Juliana Santos/ Jornalismo Júnior)

Já as ginastas artísticas apresentam uma formação genética muito diferente. Segundo um estudo conjunto entre diversas universidades pelo mundo, os atletas geralmente apresentavam estaturas menores que a média geral da idade antes mesmo de começar o treinamento, e ainda grande parte possuía pais de estatura menor do que o padrão dos pais de atletas de outras modalidades.

É fato que a menor estatura auxilia ginastas artísticos, pois lhes conferem um centro de gravidade mais próximo do chão, permitindo um equilíbrio maior comparado a indivíduos mais altos. Ela ajuda também para rotações: quando o indivíduo é menor, o mesmo impulso que lhe faz dar três giros no ar faria alguém maior dar, por exemplo, dois giros e meio. Parece pouca coisa, mas na ginástica artística pode ser a diferença entre um ouro e um bronze.

O mesmo estudo grego lança uma questão: será que a baixa estatura destes atletas se mantém por seleção natural pessoas mais baixas tendem a permanecer no esporte, e se dar melhor nele ー ou treinadores e olheiros tendem a escolher pessoas mais baixas para treinar?

A revelação destas predisposições genéticas nos dizem que não é apenas o treinamento que molda os corpos destes atletas. Uma ginasta artística não teria crescido 50cm a mais caso não tivesse treinado tanto, por exemplo ela já tem genes que determinam uma estatura menor do que o resto da população. No entanto, outras pesquisas mostram que o treinamento pode, sim, influenciar.

Durante o treinamento

Em Agosto de 2000, um artigo publicado The American Journal of Clinical Nutrition forneceu dados sobre a progressão da altura de ginastas artísticas. Entre os 7 e 10 anos, as ginastas apresentavam altura e peso maior que 48% da população de sua idade, o que as deixa pouco abaixo da média. Já entre os 11 e 14 anos, seu crescimento pareceu ser mais lento, e as atletas analisadas agora estavam com peso e altura maiores que apenas 20% da população muito abaixo da média de sua idade.

Algo diferente foi notado nas ginastas rítmicas, segundo pesquisadores da Universidade de Patras. As atletas, que já estavam entre a metade mais alta da população na infância, atingiram ou até superaram a altura prevista por sua predisposição genética, o que pode significar que o treinamento não só preservou seu potencial de crescimento, como também o auxiliou.

O padrão de crescimento das ginastas rítmicas surpreendeu os pesquisadores. Enquanto crianças comuns do sexo feminino terminam o período de crescimento em torno dos 15 anos, as ginastas tiveram esse período estendido até os 18 anos, tendo o auge da velocidade de crescimento mais para o final desta puberdade atrasada.

Amadurecimento por dentro e por fora

Falando em puberdade, um ponto em comum entre ginastas rítmicas é justamente esse: a puberdade tardia.

Décadas de treinamento intenso modificam o funcionamento dos hormônios e contribuem para o atraso no início da puberdade. Dessa forma, o nível de estrogênio no corpo cai, provocando outras complicações como a redução na densidade dos ossos que vamos explorar mais em outro tópico.

Os sintomas mais comuns deste atraso em ginastas é a ovulação tardia, e a amenorréia, que é quando simplesmente não ocorre a menstruação. O que explica esse quadro é a redução dos níveis do hormônio leptina, que por sua vez se dá pelo nível de gordura corporal reduzido em atletas. A leptina é o hormônio que auxilia a comunicação entre o hipotálamo e a glândula pituitária que se conecta com os ovários. Seu papel é essencial para o início da ovulação, que também auxilia a produção e liberação do estrogênio.

Quando uma ginasta termina seu período de treinamento intenso, a ovulação deve começar a ocorrer normalmente mas há casos em que é necessário a indução médica da puberdade.

O atraso na puberdade não só afeta o interior da atleta, como também sua aparência. Os hormônios sexuais são responsáveis pelas características externas que fazem um corpo parecer mais “feminino” ou “masculino” o depósito de gordura, o crescimento de pelos, o desenvolvimento de seios, entre outros.

Já que estes hormônios demoram a acordar nas ginastas, seu corpo também demora a se desenvolver. Por isso é tão comum ver atletas com aparência infantil.

Isto é mais evidente e mais influente nos corpos das ginastas artísticas. Como o trabalho muscular é muito mais intenso nesta modalidade, ombros, braços e o torso em geral destas garotas é mais largo e mais forte que o de não-atletas, ou de ginastas rítmicas. Combinando esta característica com o baixo nível de gordura corporal e o amadurecimento corporal atrasado, temos também quadris significativamente mais estreitos e como resultado, o tipo físico comum nas ginastas artísticas.

A anatomia de ginásticas artísticas. (Juliana Santos/Jornalismo Júnior)

 

Ossos (fracos) de atleta

Como já vimos, o baixo nível de estrogênio no corpo pode afetar o desenvolvimento ósseo do atleta. A baixa densidade óssea é um problema extremamente comum entre ginastas; os ossos não conseguem acompanhar o desenvolvimento rápido dos músculos e acabam sendo alvo fácil para fraturas por stress. O estudo da Universidade de Patras também mostrou que algumas ginastas tinham um atraso em desenvolvimento ósseo de 1,8 anos, o que significa que seus ossos tem somente a força que deveriam ter há quase dois anos.

Quando o atleta para de competir, surge o maior risco. Com menos tempo de treino, os músculos já não conseguem mais compensar a fragilidade dos ossos, e é quando boa parte das fraturas ocorre. Com o tempo, a densidade óssea atinge o valor correto para a idade, mas não é aí que acabam os problemas.

Ginastas, segundo a fisioterapeuta Natasha Melacrinis, para o site SBS Science, são um grupo de maior risco para artrite e osteoporose. A incidência é maior, no caso de ginastas artísticas, nos locais que mais sentem as quedas e os impactos os pulsos, os joelhos, as costas e os tornozelos.

As fraturas podem surgir até décadas depois do atleta se aposentar, especialmente em períodos de maior stress, como, por exemplo, uma gravidez. Elas também são acompanhadas de outro problema comum em ex-atletas: a dor crônica.

Para lidar com estas complicações, a maioria dos ex-atletas mantém uma rotina de exercícios regular pelo resto da vida.Portanto, mesmo com todos os problemas, eles se mantém em forma e mais fortes que boa parte da população.

E então?

Como já tínhamos comentado – não é tão simples assim. Médicos e cientistas não têm um consenso sobre o real impacto do treinamento olímpico no corpo das atletas destas duas modalidades. Mas já podemos entender algumas coisas:     

  • o treinamento por si só não é a causa da altura das atletas. Flávia Saraiva não teria 1,80 se não fosse ginasta; a genética tem um papel muito importante nisso.
  • existe genes que determinam uma maior disposição de um indivíduo para uma modalidade esportiva, como já foi estudado em ginastas rítmicas. Toda aquela mobilidade também teve uma ajudinha da genética mas não seria possível sem muito, mas muito trabalho duro!
  • o treinamento pode sim impactar diversos aspectos corporais muitos que não vemos ao assistí-los em ação. Você imaginaria que uma ginasta que faz todos aqueles saltos pode ter ossos mais fracos que os seus?

Ainda muito a ser descoberto sobre como o esporte molda a vida, os corpos e as mentes dos atletas. Embora não saibamos de tudo, poderemos assistir aos próximos campeonatos e às Olimpíadas de 2020 sabendo muito mais sobre a ginástica!

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *