Guerreiros do Gelo: conheça mais sobre o hóquei, modalidade em franca expansão no gosto do brasileiro

Por Renato Navarro

O hóquei no gelo vem, aos poucos, conquistando seu espaço entre os fãs de esporte brasileiros. Muito disso se deve à cobertura da NHL (National Hockey League, campeonato nacional dos Estados Unidos) por canais fechados, mas também à popularização gradual dos Jogos Olímpicos de Inverno, como os deste ano, na cidade sul coreana de PyeongChang e que acontece entre os dias 9 e 25 de fevereiro. Apesar disso, muitos aspectos ainda surpreendem  os espectadores não familiarizados: homens vestindo verdadeiras armaduras, duas traves que não ficam no fundo do rinque de patinação, retas e círculos coloridos marcando todo o piso, brigas ocorrendo repentinamente. Para sanar a curiosidade que o esporte desperta é necessário, então, compreender suas origens, bem como as regras que o regem.

História

O hóquei no gelo descende da modalidade praticada sobre a grama, um esporte levado pelos soldados britânicos às colônias do Império no século XIX. As primeiras partidas teriam sido disputadas pelos oficiais em 1834, nos lagos congelados das cidades canadenses de Kingston e Hallifax. Assim como no hóquei de grama, os participantes utilizavam bastões curvos e uma bola de borracha, tendo como única diferença os patins de gelo, próprios para a locomoção sobre o novo terreno.

A princípio, não havia uma convenção sobre a quantidade máxima de integrantes em cada equipe, assim como eram inexistentes as marcações de faltas e penalidades. Somando isso à competitividade e ao fato do hóquei ser um esporte repleto de contatos físicos entre os jogadores adversários, as brigas tornaram-se algo tradicional desde o seu surgimento, especialmente como forma de intimidar psicologicamente o oponente.

Em 03 de maio de 1875 ocorreu a primeira partida de hóquei no gelo em ambiente interno, no rinque de patinação de Montreal, também no Canadá. A disputa foi organizada pelo advogado e jornalista James Creighton, capitão de uma das equipes e grande difusor do esporte no país. Este jogo foi o pioneiro em diversos aspectos, como a presença de um árbitro, o estabelecimento de um número exato de jogadores (9 para cada equipe mais os reservas) e a determinação do tempo de jogo em 60 minutos. Este dia também é o marco inicial da utilização do puck (disco de madeira) no lugar da bola, pois o rinque não era fechado e ela poderia ir na direção da plateia com frequência.

Normas

Cada equipe entra em quadra com seis jogadores, sendo o goleiro, dois defensores e três atacantes. As partidas são divididas em três tempos de 20 minutos, e o time que houver marcado mais gols ao fim do terceiro período é o vencedor. De forma semelhante ao basquete, o cronômetro só é disparado quando o puck está em jogo. 

Caso o placar esteja empatado ao fim do tempo regulamentar, há a chamada “morte súbita”: os times se enfrentam por mais cinco minutos com quatro jogadores de cada lado,  aquele que marcar primeiro sai vitorioso. A persistência do empate provoca o shootout, onde três atletas de cada equipe cobram os penalty shots se intercalando, de forma semelhante ao  futebol. Da mesma forma, se ao fim das seis cobranças o ganhador ainda tiver sido definido definido, são batidos pênaltis alternados até que um time vença.

As pontuações variam de acordo com o organizador da competição e com o momento em que a partida termina. Em competições da Federação Internacional de Hóquei no Gelo (IIHF), o vencedor leva três pontos se tiver êxito no tempo normal e dois se triunfar na morte súbita ou no shootout. Por sua vez, o perdedor não conquista pontos se for derrotado dentro dos 60 minutos, mas leva um ponto ao ser superado em alguma das outras duas ocasiões.

Na NHL o sistema de pontos é semelhante, com exceção de vitória no tempo regulamentar: a equipe conquista dois pontos, e não três.

Rinque

De acordo com a IIHF a pista de gelo deve possuir 30 metros de largura por 61 de comprimento, enquanto na NHL as medidas adotadas são 26 metros de largura pelos mesmos 61 de comprimento. Diferentemente da quadra de outros esportes, o rinque sempre tem os cantos arredondados, facilitando o deslocamento rápido dos jogadores e do puck. Toda sua extensão é cercada por uma pequena mureta, sobre a qual fica uma proteção de acrílico ou vidro temperado que impede o disco de atingir a torcida.

A superfície do gelo têm diversas linhas e demarcações, cada uma com um propósito diferente:

(Imagem: Júlia Vieira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

  1. Linha vermelha: Linha central do rinque;
  2. Linha azul: Linhas que delimitam a transição da zona neutra do campo para as zonas de defesa/ataque;
  3. Linha do gol: Linha que acompanha o comprimento de todo o rinque, e em cujo centro ficam as traves de cada time;
  4. Área do goleiro: Local reservado para a permanência e movimentação dos goleiros de cada time;
  5. Gol: Traves com 1,20 metros de altura por 1,80 metros de comprimento;
  6. Círculo central e face-off central: Local onde há o primeiro face-off do jogo, e também de onde se cobram os shootouts. Face-off é a disputa na qual o juiz solta o puck ao chão e dois jogadores, um de cada time, duelam por sua posse.
  7. Face-offs neutros: Pontos de face-offs localizados na zona neutra do campo;
  8. Face-offs defensivos: Pontos de face-offs localizados na zona de defesa do time;
  9. Face-offs ofensivos: Pontos de face-offs localizados na zona de ataque do time;
  10. Área da arbitragem: Região onde os árbitros se reúnem nas paralisações dos jogos;
  11. Trapézio do goleiro: Área atrás do gol onde o goleiro pode manipular o puck. A marcação só é usada nos Estados Unidos;
  12. Banco de reservas;
  13. Mesa dos mesários;
  14. Banco de punição: Local onde os jogadores temporariamente suspensos cumprem a penalização.

Equipamentos

(Imagem: Gabriela Teixeira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

Infrações e paralisações

  • Pênalti: Ocorre quando um jogador com possibilidade de arremate ao gol é puxado ou derrubado, ou quando um dos skaters (jogadores de linha) tenta impedir o gol. A punição para o infrator pode variar com a gravidade do ato, desde dois minutos no banco de punição até expulsão da partida.
  • Falta: Dentro do hóquei há uma série de situações que caracterizam faltas, divididas entre as que rendem punição menor e punição maior. Na punição menor, o atleta deve ficar por dois minutos no banco de punição, ou até seu time tomar um gol. Já na punição maior, o jogador deve aguardar cinco minutos para voltar à partida. Em qualquer um dos casos, a equipe terá um face-off em seu campo de defesa. Algumas das faltas que originam punições menores consistem em atingir o adversário com o bastão de forma não intencional, segurar o disco com as mãos, o goleiro ultrapassar o meio da pista  ou ser tocado pelo outro time em uma tentativa de impedi-lo de fazer uma defesa. Já as punições maiores dizem respeito a ações mais graves, como atingir o oponente com a lâmina (parte de baixo) do bastão, prensá-lo de frente à proteção da pista, dar  cabeçada no rival, agredir alguém gerando  lesão ou se envolver em uma briga.
  • Impedimento: O primeiro jogador a cruzar a linha azul do campo ofensivo deve ser o que conduz o puck. Caso alguém do time já esteja no setor quando o condutor do disco chega, é marcada a irregularidade. Outra situação característica é quando um atleta na zona de ataque recebe o puck em um passe feito a partir de seu campo de defesa, sem intermediários. Após a marcação do impedimento, há um face-off em ponto neutro.
  • Icing: É marcado quando um jogador “isola” o puck, fazendo com que ele passe por três linhas do campo à frente da defesa. Neste caso a equipe adversária tem direito a um face-off em seu ataque.
  • Dead play: Ocasião em que o jogo para por algum motivo, como lesão de jogador, trave fora do lugar, etc. A partida é retomada com um face-off na zona neutra.
  • Brigas: Em todo o mundo as lutas dentro do rinque têm sido combatidas, rendendo expulsões das partidas e até suspensões aos envolvidos. Nas ligas norte-americanas, no entanto, essas ocorrências são tratadas como parte do esporte, inclusive sendo vistas por seus defensores como uma forma de trabalhar a agressividade dos atletas. Na NHL e demais ligas do país, as brigas seguem uma espécie de código informal: Apenas dois jogadores, um de cada lado, devem participar do duelo. Para isso eles devem soltar seus bastões e tirar as luvas, deixando claro que são os envolvidos. A arbitragem interfere caso um dos dois perca o capacete ou caia ao chão, separando os brigões e os mandando para o banco de punição por cinco minutos.

Apesar da aparência e fama de violento, o hóquei no gelo é um esporte democrático, contando com equipes infantis e adultas, masculinas e femininas. E não se engane se você pensa que o clima é essencial para a prática da modalidade: diversos países da América do Sul contam com seleções da categoria, inclusive o Brasil. Criado em 2014, o esquadrão tupiniquim ainda não disputou campeonatos mundiais ou olimpíadas, mas os chamados “Yellow Eagles” são mais uma prova de que, cada vez mais, o hóquei no gelo veio para ficar.

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *