Em dose dupla: as atuais conquistas do tênis brasileiro

Por André Romani e Beatriz Gatti

Marcelo Melo, em julho de 2017, conquistou Wimbledon nas duplas masculinas, ao lado do polonês Łukasz Kubot. Em cinco anos, o título foi o sétimo Grand Slam conquistado por brasileiros na categoria. Já na disputa de simples, a última conquista foi de Gustavo Kuerten há 16 anos, em Roland Garros. E isso falando apenas do masculino, visto que o feminino, com muito menos apoio, tem como sua última e única campeã Maria Esther Bueno. O Arquibancada conversou com alguns tenistas da modalidade para entender melhor o jogo e o desempenho brasileiro nesse estilo nos últimos anos.

Melo logo após ser campeão em Wimbledon (Imagem: Reprodução/VEJA)

Regras gerais

O jogo de duplas apresenta grandes diferenças em relação ao de simples. Com quatro jogadores na quadra, ela passa a ter uma maior extensão: as faixas laterais, desconsideradas nas simples, valem nas duplas. Outro aspecto é a ordem de saque. No começo de cada set, a dupla decide quem começará servindo e, em seguida, o saque é alternado entre os jogadores. Dessa forma, em uma dupla formada pelos jogadores A e B, se A saca no primeiro game, B sacará no terceiro, A no quinto e, assim, sucessivamente. Essa mesma regra vale para a dupla que receberá os saques.

(Imagem: Beatriz Gatti/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Por último, vale lembrar que a bola deve ser rebatida alternadamente por um membro de cada dupla, ou seja, depois que um primeiro jogador atingiu a bola, seu parceiro só poderá tocá-la após a dupla oponente rebater.

Outras diferenças para o jogo de simples

As diferenças, no entanto, não se restringem às regras. O modo de jogar também é distinto. Para Thomaz Bellucci, nas doubles os pontos são mais curtos e geralmente decididos nas três primeiras batidas. “O voleio, o saque e a devolução são os principais fundamentos da dupla porque é onde se define a maioria dos pontos”, explica o jogador, que é um dos principais representantes brasileiros no esporte. Além disso, por causa dessa rápida disputa, outro fator destacado pelo tenista é a menor exigência física em relação ao jogo de simples.

Vanessa Menga, ex-tenista brasileira e atual comentarista do esporte, utiliza o exemplo de Bruno Soares e Marcelo Melo para acentuar essas características próprias desse estilo. “Muitos dizem que é mais fácil jogar dupla, mas não é bem assim: é preciso ter talento, reflexo e ser rápido para ser um grande jogador como os dois”, adiciona.

Trabalho em equipe

O tênis é visto como um esporte muito individualista. Sozinho na quadra, o atleta depende apenas de si. Mas, nas duplas, isso muda. É preciso convivência, treinamento e comunicação com o parceiro para que as vitórias possam vir. Marcelo Melo, melhor duplista do país e atual melhor do mundo, conta que, em relação à escolha do companheiro, é importante que o ponto forte de cada um seja diferente, de modo que se complementem. ”No meu caso, tenho o saque e o voleio como principais armas”, diz.

Além disso, Melo enxerga um bom relacionamento dentro e fora da quadra como um importante aspecto para um forte entrosamento, já que, assim, o diálogo entre a equipe se torna mais fácil. Sobre os treinamentos, ele elenca alguns pilares: preparação física, estratégia de jogo, repetições nos treinamentos e aprender a ler as reações e antecipações dos movimentos do seu parceiro.

Bia Haddad, melhor tenista brasileira da atualidade, salienta que nem sempre uma boa dupla é composta por tenistas bem ranqueados no simples, mas por sintonia. “Já joguei com meninas melhores ranqueadas e não rolou química.” Para ela, a comunicação e a estratégia são alguns dos pontos principais de uma grande dupla.

A tenista, no entanto, conta que comunicação não significa conversar muito em quadra: “É muito particular; tem duplas que falam mais, fazem mais gestos; outras que nem se falam tanto. Eu, por exemplo, gosto de jogar com meninas que me deixam confortáveis, que jogam soltas. E, assim, o jogo vai fluindo”.

Brasil no panorama internacional

Triunfos e barreiras

Nas duplas masculinas, o Brasil tem sido muito bem representado nos principais campeonatos pelo mundo. Além de Marcelo Melo, Bruno Soares é outro que desponta na categoria, tendo conquistado, em 2016, o US Open e o Australian Open, ambos com seu parceiro Jamie Murray. Além disso, Soares também brilha nas duplas mistas. O mineiro é detentor de três títulos, sendo dois US Open e um Australian Open, em cada ocasião com uma parceira diferente.

Dessa forma, Melo aponta que o sucesso atual do tênis brasileiro nesse estilo é colocado muito nas costas de talentos individuais. “Estamos em um ótimo momento dos jogadores de duplas no país. E esperamos manter isso, assim como desenvolver o tênis brasileiro como um todo”, torce o jogador.

Quanto às duplas femininas, desde as incontáveis vitórias de Maria Esther Bueno, não tivemos nenhuma outra brasileira conquistando algum Grand Slam na categoria. Vanessa Menga acredita nas futuras conquistas do feminino. E aposta em Bia Haddad. “Uma menina mulher forte, talentosa, que ama o que faz e terá um futuro brilhante. Chegará a ser top 10 do mundo? Ainda não sei. Quem sabe se eu treiná-la?”, brinca. A receita do sucesso, para ela, é ter “mentalidade forte, físico de monstro e amor ao esporte”.

De onde surgiram os talentos

Após a Era Guga, além dos expressivos resultados obtidos por Fernando Meligeni, o Brasil passou por um significativo intervalo de tempo sem grandes conquistas. Apesar da consequente carência de referências imediatas no país, os jovens brasileiros vêm despontando no tênis, principalmente nas duplas.

Marcelo Melo, por exemplo, conta que a inspiração veio da própria família. Vindo de uma família de tenistas, tendo inclusive o irmão como técnico, ele gostava de assistir a seus pais jogando. ”Quando faltava um amigo deles, eu era o primeiro na lista de espera. Acabei tomando muito gosto pelas duplas substituindo esses parceiros dos meus pais”.

Bia Haddad teve uma história parecida. Com um apreço muito grande pelo simples desde pequena, ela pegou gosto pelas duplas através de brincadeiras com os familiares: ”As duplas, na verdade, eu jogava às vezes com meus primos, no clube, ou até com os meus avós”. Apesar de afirmar que não tinha uma grande referência, Bia conta que consegue se sentir solta e se divertir em quadra nesse estilo de jogo.

Olimpíadas

Mesmo já tendo conquistado os principais torneios do mundo, o Brasil ainda não possui um medalha olímpica no tênis. Marcelo Melo e Bruno Soares, que chegaram como favoritos em 2016, ainda mais por jogarem em casa, acabaram eliminados nas quartas.

Melo explica que, em torneios como esse, o momento e o detalhe são de extrema importância. Apesar do resultado adverso, o tenista ressalta o quão emocionante foi representar o país em uma Olimpíada disputada no país: “Foi inesquecível, mesmo não tendo sido possível disputar medalha”.

Soares e Melo na Rio 2016 (Imagem: Reprodução/ESPN)

Bellucci reafirma a importância do condicionamento psicológico nesse tipo de campeonato: “Nas últimas Olimpíadas, por mais que eles [Soares e Melo] fossem favoritos, o aspecto mental contou bastante, já que a expectativa era grande em cima deles”. O tenista, no entanto, acredita que é apenas questão de tempo até a medalha ser alcançada.

Qual foi o momento mais especial da sua carreira?

“Foi a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg em 1999. Porque representei o meu país, porque ganhamos [com a dupla de Joana Cortez] uma final de virada e emocionante. Mas o mais bacana foi o reconhecimento do público quando voltamos ao Brasil. Nunca esquecerei. Enquanto desfilava pela cidade de Jundiaí, onde moro hoje, as pessoas me agradeciam pela medalha conquistada!” Vanessa Menga

“Nas duplas, foram os dois WTAs de Bogotá que ganhei e duas finais de Roland Garros juvenil. E de simples, já tive semanas muito boas, mas o melhor foi o título do ITF US$ 100 mil de Cagnes-sur-Mer, na França, este ano” Bia Haddad

“Meu grande sonho sempre foi vencer o Torneio de Wimbledon. Consegui, agora em julho, tornar esse sonho realidade. Foi uma grande emoção. Um momento inesquecível, muito marcante, muito especial. Mas, outras duas conquistas também marcam e muito a minha carreira: ser número um do mundo – posição que já ocupei por duas vezes – e o título do meu primeiro Grand Slam, em Roland Garros, na França, em 2015”   Marcelo Melo

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