Allez les Bleus: o futuro da F1 é francês

Por André Netto 

Depois de 40 anos, o Brasil não tem nenhum representante na maior categoria do automobilismo, a Formula 1. E o futuro do país na categoria não é muito promissor, tendo apenas Sérgio Sette Câmara, atualmente na F2, e Pedro Piquet, na GP3, como grandes esperanças para as próximas temporadas. O brasileiro que se acostumou a ver grandes duelos, como o de Ayrton Senna com o francês Alain Prost, terá de se acostumar com a falta de representantes.

Diferentemente do Brasil, a França continua forte na categoria, com duas grandes promessas francesas e um vizinho monegasco. Os franceses são Pierre Gasly, que fez sua primeira corrida na temporada passada, e Esteban Ocon, já em sua terceira temporada. O primeiro é piloto da Scuderia Toro Rosso (STR) e o segundo, da Force India. Já o monegasco é Charles Leclerc, piloto da Sauber que está estreando este ano na categoria após conquistar o título da F2 na temporada passada. Curiosamente, o campeão de 2016 da F2 foi Gasly, que, após o campeonato, virou piloto de testes da Red Bull. Isso abriu uma vaga para Leclerc na Prema Racing para a temporada seguinte, na qual o monegasco também levou o título.

Pierre Gasly

Pierre Gasly nasceu em Rouen, no noroeste da França, em fevereiro de 1996. Sua família já era fanática por automobilismo, sendo que seu avô foi kartista e seu pai disputou provas em diferentes categorias. Com a velocidade em suas veias, o jovem francês iniciou sua carreira no kart em 2006, onde correu por quatro anos antes de ir para a F4 francesa. Já no ano seguinte, passou a competir na Formula Renault 2.0 e, em 2013, conquistou o título, chamando a atenção de olheiros da Red Bull Racing, que o contrataram para seu programa de juniores.

Após ser vice-campeão em 2014 na Formula Renault 3.5, perdendo o título para o espanhol Carlos Sainz (hoje piloto da Renault na F1), Gasly conseguiu uma vaga na GP2, atual F2. Além disso,  pôde sentir o gostinho da F1 pela primeira vez ao fazer testes pela Red Bull e pela Toro Rosso. Depois de quatro pódios na temporada de 2015 pela DAMS, Gasly foi para a Prema Racing, onde passou a disputar vitórias e sagrou-se campeão, ficando apenas oito pontos à frente de seu companheiro de equipe, Antonio Giovinazzi.

Sem conseguir vaga na Fórmula 1 em 2017, Gasly optou por competir na Super Fórmula Japonesa. Ele estava em segundo na competição quando foi chamado para substituir Daniil Kvyat na Toro Rosso, após o chefe da equipe ter considerado que o russo não tinha mostrado seu verdadeiro potencial. Em sua estreia na Malásia, Gasly chegou na 14º posição, e, nas outras quatro corridas que disputou, obteve como melhor resultado a 12º posição no GP do Brasil.

Pierre Gasly em sua estreia pela Toro Rosso. (Imagem: Alex Caparros/Getty Images)

 

Esteban Ocon

Esteban Ocon nasceu em Évreux, na Normândia, cidade que fica a 50 km da cidade natal de Gasly. Devido à proximidade geográfica e ao interesse em comum pelo automobilismo, os dois criaram certa amizade, mas esta teve vida curta: de acordo com Gasly, a competitividade das pistas não fez bem ao relacionamento. Em entrevista durante o GP do Bahrein deste ano, ele disse que começou a vencer Esteban e que a partir daí pararam de se falar. Contudo, o retrospecto nas pistas contradiz a fala do atual piloto da STR: nos dois primeiros anos no kart em que competiram, quem levou a melhor foi Ocon.

O sucesso no kart abriu oportunidades nos monopostos, levando o jovem francês para a Fórmula Renault 2.0, onde mais uma vez encontraria Gasly, desta vez levando a pior no duelo. Ficou três anos na categoria, e em 2014 conseguiu uma vaga na F3 na Prema Racing. Logo no primeiro ano, Ocon demonstrou ser diferenciado ao conquistar a F3 Europeia com uma campanha irretocável de 9 vitórias, 21 pódios e 15 pole positions. No mesmo ano, pilotou um carro de F1 pela primeira vez em um treino pela Lotus.

No ano seguinte, conquistou a GP3 e passou a fazer parte do programa de juniores da Mercedes. Em 2016, virou piloto reserva da Renault e passou a competir na DTM, campeonato de turismo da Alemanha. A tão sonhada promoção para a F1 veio no meio deste mesmo ano, quando Ocon foi chamado para substituir Rio Haryanto na Manor Mercedes.

Esteban Ocon pilotando pela Manor, sua primeira equioe na F1, no GP do México de 2016. (Imagem: EPA/JOSE MENDEZ)

 

Em sua temporada de estreia, Esteban não conseguiu fazer muita coisa com o fraco carro da Manor. Sua melhor posição de chegada foi o 13º lugar no GP de Abu Dhabi, que encerrou o ano de competições. Ainda assim, seu talento e sua relação com a Mercedes levaram-no à Force India. Agora com um carro melhor, Ocon pôde demonstrar seu potencial, terminando em oitavo lugar e tendo conquistado pontos em 18 das 20 corridas.

Charles Leclerc

A trajetória do monegasco Charles Leclerc é, provavelmente, a mais tocante de todo o atual grid da Fórmula 1. Nascer em Mônaco implica em um contato inevitável com o esporte, já que, em um final de semana por ano, o principado se torna palco de um dos mais tradicionais grandes prêmios da categoria. Além disso, seu pai, Herve Leclerc, foi piloto e competiu na década de 90 na F3, e seu melhor amigo, Jules Bianchi, também compartilhava o sonho de ser piloto. Charles começou a pilotar com apenas quatro anos, e Jules foi seu primeiro professor. A partir de então, Leclerc começou a se destacar no kart, enquanto Bianchi subia nas categorias em busca de uma vaga na F1.

Em 2014, Leclerc passou a competir na Fórmula Renault 2.0, buscando chegar ao nível de seu melhor amigo, que já estava em seu segundo ano na Fórmula 1 e havia conquistado seus primeiros pontos justamente no GP de Mônaco. Mas, ao final do ano, veio a tragédia: no GP do Japão, Jules Bianchi sofreu um grave acidente, que o deixou em coma e veio a falecer em Junho de 2015. Charles perdia não apenas seu melhor amigo, mas também um grande companheiro de pista e seu primeiro mentor.

Ainda que estivesse abalado, continuou a fazer o que mais gostava: correr. Seu desempenho chamou a atenção da Ferrari, que, em 2016, contratou-o para sua academia de juniores, assim como havia feito com Jules em 2010. Depois disso, a carreira do monegasco alavancou: ganhou a GP3 em seu primeiro ano e, no ano seguinte, herdou a vaga de Gasly na Prema Racing para a disputa da F2.

Após um grande início na categoria, Leclerc teve mais uma vez que lidar com o luto ao perder seu pai, seu outro grande mentor em sua carreira. Tendo apenas um dia para se despedir, Charles foi para o Azerbaijão para a quarta etapa da F2, onde fez a pole e ganhou as duas corridas. Acabou conquistando o título com três etapas de antecedência e agora faz sua estreia na Fórmula 1 pela Sauber.

Leclerc pilotando sua Sauber durante testes em Barcelona. (Imagem: Josep Lago/AFP)

 

Entrevista com Alexander Grünwald

Alexander Grünwald, jornalista da Globo e do Sportv especializado em automobilismo, deu sua visão sobre quais seriam as grandes promessas da Fórmula 1: “Essa de linha de pilotos com Esteban Ocon, Charles Leclerc, principalmente estes dois, e ainda podemos considerar outros pilotos com Gasly”.  

Ele também comentou sobre Max Verstappen, outra grande sensação da categoria: “não coloco o Verstappen nesse balaio, embora ele seja novo, por que ele está na quarta temporada e só está provando que é um cara com a cabeça muito oca. No momento vejo ele mais como Maldonado do que como Senna. Acredito que ele até possa ganhar alguma coisa porque ele vai pegar um hiato de gerações, mais ou menos como o efeito Schumacher em 1994-95”. Outros nomes citados pelo jornalista são os britânicos Lando Norris e George Russel, que atualmente estão na F2.

De acordo com Grünwald, as chances de Ocon na categoria são bem altas, já que atualmente é o substituto imediato de Lewis Hamilton, que já está em sua 12ª temporada e pode se aposentar em breve. Quem poderia batalhar com o francês por essa vaga seria George Russel, que também é piloto da academia Mercedes e já chegou a fazer testes pela própria Force India, equipe que tem forte relação com a equipe alemã.

O problema para Esteban é que, recentemente, a equipe Force India entrou em recuperação judicial e foi comprada por um consórcio de ninguém menos que Lawrence Stroll, pai do piloto canadense Lance Stroll. Assim, Stroll deve assumir uma das vagas da equipe, e o favorito para sair é justamente Ocon. De qualquer maneira, é muito imporvável que o francês fique sem carro na F1 para a próxima temporada, pois já demonstrou que é um excelente piloto.

Já Charles Leclerc, piloto que mais encanta o jornalista, também não deve ter muitas dificuldades em subir na categoria, desde que mantenha os bons resultados obtidos na F2 e na GP3 na Fórmula 1. Ele espera também que a Ferrari não cometa com Leclerc o mesmo erro que cometeu com seu amigo Jules Bianchi, ao deixá-lo “mofando” na Marussia ao invés de promovê-lo para o lugar do finlandês Kimi Raikkonen.

Ainda que Gasly não seja um dos preferidos de Grünwald, ele é quem terá o melhor carro para a próxima temporada. O francês vai pilotar pela Red Bull, no lugar de Daniel Ricciardo que foi para a Renault. Na RBR, ele terá a chance de demonstrar todo o seu potencial, ainda que nas primeiras temporadas a tendência seja que seu companheiro, Max Verstappen, receba melhor tratamento da equipe.

Com a Force India, Ocon conseguiu um lugar na segunda fila em Spa-Francorchamps. (Imagem: Twitter/Reprodução)

 

2018: O trio consegue grandes resultados com carros limitados

A temporada de 2018 já viu os três pilotos obterem resultados impressionantes: Gasly conseguiu um quarto lugar no GP do Bahrein após largar em quinto,  Leclerc completou a prova do Azerbaijão em uma impressionante sexta posição e Ocon garantiu um sexto lugar em Mônaco e a terceira posição de largada para o GP da Bélgica. Gasly e Leclerc foram eleitos piloto do dia nas respectivas corridas, e Ocon só não levou o prêmio porque Daniel Ricciardo conseguiu levar um carro com problemas ao topo do pódio.

 

 

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *