Os grandes nomes da nova geração do tênis

Por André Netto

Roger Federer, Rafael Nadal, Novak Djokovic, Andy Murray. Você já deve ter ouvido o nome destes grandes atletas, que há mais de uma década dominam o tênis masculino. Assim como é estranho imaginar um futuro sem Cristiano Ronaldo e Lionel Messi no futebol, é difícil pensar nas quadras sem estes nomes. Mas, assim como o craque argentino e o português, todos estes grandes tenistas já passaram dos trinta anos, e a tendência é que novos jogadores ocupem seus postos daqui para frente. O Arquibancada traz quatro nomes promissores que  poderão formar a próxima elite do tênis masculino.

 

Dominic Thiem

O primeiro nome dessa lista é o do austríaco Dominic Thiem, de 24 anos, cuja carreira  começou de um modo peculiar. Filho de treinadores de tênis, logo cedo demonstrou a paixão pelo esporte da bolinha amarela. Começou a treinar com Günter Bresnik, ex-jogador austríaco, que de início não viu nenhum grande diferencial no menino, a não ser a grande paixão pelo tênis e uma grande vontade de aprender.

Dominic passou, então, a ser o principal projeto de seu treinador, que anos mais tarde publicaria um livro chamado “O método Dominic Thiem”, em que explica um pouco mais os inusitados treinamentos que passou a seu pupilo. Dentre outras técnicas atípicas, Thiem teve que cortar madeira, praticar Hóquei no Gelo e também teve sua personalidade trabalhada, já que Günter acreditava que era muito gentil para se tornar um atleta de alto desempenho.

Capa do livro de Günter Bresnik sobre o “método Thiem”. (Imagem: Instagram/Reprodução)

 

Todo o esforço do jovem tenista começou a render excelentes resultados nas quadras, ainda que muitas vezes os resultados pouco importassem para Bresnik, na tentativa de construir uma verdadeira máquina. Thiem chegou a ser o número 2 no ranking de juniores, e passou a receber convites para disputar torneios da ATP. Mas, ainda assim, faltava físico para o jovem de 1,85m, que aparentava se cansar facilmente durante as partidas.

Visando melhorar a preparação físico de Dominic, Bresnik recorreu ao pentatleta e soldado Sepp Resnik – famoso por suas participações no Ironman (campeonato de longas provas de triathlon) – para treinar o atleta. Dentro de uma floresta, em um parque em Viena, ele passou a carregar troncos de 25kg e correr 15km durante a noite. No final de 2014, Thiem demonstrava nas quadras a evolução física dos treinos com Resnik.

Com o físico em dia, o jovem austríaco começou a conquistar títulos e a ganhar cada vez mais destaque. Em 2015, foram três títulos de torneios da ATP, que lhe garantiram a décima oitava posição no ranking ao final da temporada. No ano seguinte, conquistou títulos em todos os tipos de quadra (rápida, saibro e grama) e chegou a semifinal de Roland Garros, perdendo para o eventual campeão Novak Djokovic. Naquela ocasião, entrou no top-10 pela primeira vez, alcançando a sétima posição no ranking da ATP. Seu melhor ranking foi no final de 2017, quando alcançou a quarta posição após chegar a sua primeira final de Masters 1000 em Madrid.

Atualmente, ocupa a nona posição no ranking, e ainda lhe falta um título de Masters 1000 e de Grand Slam, o que não deve demorar a acontecer. O austríaco é provavelmente o segundo melhor jogador de saibro do mundo atualmente, atrás apenas de Rafael Nadal, o que lhe rendeu o apelido de Príncipe do Saibro. Seu estilo de jogo, com rapidez nas pernas, bolas com muito spin e golpes de preparação longa, combina muito com esse tipo de quadra e não é a toa que oito de dez dos seus títulos de torneios da ATP vieram no saibro. O jovem tenista, treinado no ritmo militar, pode ser o próximo Rei do Saibro.

 

Borna Ćorić

Fã de Mike Tyson, Borna Ćorić nasceu em 1994 em Zagreb, na Croácia, e começou a jogar tênis com apenas cinco anos, influenciado pela irmã mais velha. Passou a se dedicar ao esporte e começou a se destacar já nas categorias de juniores, conquistando o US Open e chegando às semifinais do Aberto da Austrália e de Roland Garros. O impressionante desempenho do croata lhe rendeu a primeira posição do ranking de juniores em 2013.

O jovem atleta fez sua estreia como profissional durante a Copa Davis daquele ano e, na temporada seguinte, surpreendeu Rafael Nadal, um de seus grandes ídolos, nas quartas de finais do ATP 500 da Basileia. Com isso, tornou-se o jogador mais jovem a ganhar do espanhol, então com 17 anos, e no mesmo ano ganhou o prêmio Star of Tomorrow, dado pela ATP ao jogador mais jovem do top-100. Na temporada seguinte, a vítima da vez seria o britânico Andy Murray, durante o ATP 500 de Dubai, no qual chegou às semifinais, perdendo para ninguém menos que Roger Federer.

Ćorić crescia rapidamente na categoria principal, e o top-10 parecia uma conquista iminente. Mas as lesões e as diversas trocas de treinadores barraram a evolução do atleta, que até o começo do ano tinha como melhor ranking a 33ª posição. O próprio jogador admitiu, em entrevistas, que os constantes cambios de técnico não estavam fazendo bem para o seu tênis, e que sua carreira não tinha progredido da maneira que gostaria.

O croata só foi chegar em sua primeira final de torneios da ATP em 2016, no ATP 250 de Chennai, na Índia, mas saiu derrotado pelo suíço Stan Wawrinka. A segunda final veio logo em seguida, no ATP 250 de Marrakech, em Marrocos onde perdeu novamente, desta vez para o argentino Federico Delbonis. Na temporada seguinte voltaria a disputar a mesma final no Marrocos, mas desta vez não deixaria o título escapar, vencendo Phillipp Kohlschreiber na final, depois de passar por uma séria cirurgia no joelho no fim de 2016.

Em 2018, Borna firmou parceria com Ricardo Piatti e Kristijan Schneider para serem seus técnicos, e, agora com profissionais mais experientes, o croata voltou a evoluir. Chocou a todos ao vencer o ATP 500 de Halle em cima de Roger Federer, um dos melhores jogadores de grama da história e que estava jogando em casa. Ćorić havia ganhado apenas dois de seus primeiros nove jogos na grama antes do torneio.

Borna Ćorić ao lado de Roger Federer depois de conquistar o ATP 500 de Halle. (Imagem: Getty Images)

Atualmente, o jogador de 1,88m vive uma das melhores fases de sua carreira, alcançando a 20ª posição no ranking. O jogador possui um bom saque, e o fato de ter nascido canhoto, mas jogar como destro significa que ele tem um bom backhand. Gosta de jogar na quadra rápida, e se conseguir fugir das lesões pode ser o “novo Djokovic”.

 

Denis Shapovalov

Denis Shapovalov é um tenista canadense nascido em Israel, filho de russos e que atualmente mora nas Bahamas. Seus pais se mudaram de Israel para Toronto, no Canadá, quando ele tinha apenas nove meses, por conta da larga população judaica da cidade. Apesar da mãe judia, Denis decidiu seguir a religião do pai, cristão ortodoxo, e por isso é frequentemente visto jogando com uma cruz no pescoço.

Aos cinco anos começou a jogar tênis na escola da mãe, Tessa, onde foi incentivado a manter seu estilo de backhand com uma mão só. Ficou lá até os treze anos, quando decidiu que estava na hora de dar um passo adiante. Passou a treinar com Adriano Fuorivia, numa parceria que o elevou dos campeonatos regionais para finais das principais competições de juniores.

Shapo, como é chamado por seus amigos, conquistou o US Open juvenil de duplas em 2015, foi semifinalista em Roland Garros em 2016 e chegou nas finais de Wimbledon tanto nas duplas quanto individualmente, sendo campeão nesta última categoria. Ele também trouxe ao Canadá sua primeira Copa Davis de Juniores em 2015, ao lado dos compatriotas Félix Auger-Aliassime e Benjamin Sigouin.

Em 2017 passou a ser figura frequente nos torneios da ATP, disputando torneios como ATP 500 de Queens e Wimbledon. Mas o canadense só foi ter seu nome divulgado depois do Masters 1000 de Toronto, no Canadá. Naquele torneio, ele derrotou ninguém menos que Rafael Nadal, na segunda rodada, e progrediu até as semifinais, tornando-se o jogador mais jovem a disputar uma semifinal de Masters 1000, com 18 anos.

Denis Shapovalov durante o US Open de 2017. (Imagem: Rex/Shutterstock)

O estilo de jogo do canadense lembra o de Roger Federer, com quem é comparado por suas atitudes dentro e fora da quadra e por já ter grandes patrocínios. O que talvez lhe falta é um maior controle mental e mais frieza para conseguir grandes vitórias e conquistar torneios. Neste ano, Shapo ainda não conseguiu nenhum resultado mais expressivo e, atualmente, ocupa a 28ª posição no ranking da ATP. Mas, para um jogador de 19 anos, seus resultados são impressionantes e pode, em breve, replicar as conquistas das categorias juniores no profissional.

 

Alexander Zverev

Dono de um excelente backhand e de um segundo saque venenoso, Alexander Zverev nasceu em Hamburgo, na Alemanha, e tem 21 anos. Começou a jogar tênis influenciado pelo pai, que chegou a jogar no circuito profissional pela antiga URSS. Sua mãe, Irene, também foi tenista e atualmente é treinadora. Com ambos os pais envolvidos no esporte, Alexander e seu irmão mais velho, Mischa, também decidiram seguir carreira, sendo treinados pelo pai.

Sascha, como é apelidado Alexander Zverev, é quem mais se destaca na chamada NextGen – próxima geração –, ocupando o quarto lugar no ranking da ATP e tendo mais de onze milhões de dólares em premiações. Em poucos anos de carreira profissional, já superou seu irmão, que com 30 anos acumula pouco menos de cinco milhões de dólares em premiações e o 48º lugar no ranking.

Após se destacar bastante como júnior, sendo número 1 do ranking e tendo conquistado o Aberto da Austrália de Juniores em 2014, Zverev conseguiu seu primeiro título como profissional em julho de 2014, pela categoria Challenger, derrotando três tenistas top-100 ao longo do caminho. Passou a frequentar alguns campeonatos do ATP-Tour, chegando a uma semifinal de ATP 500 no mesmo ano e em 2015 já estava no top-100.

Zverev continuou sua ascensão chegando ao top-20 em outubro de 2016, mas o grande destaque só veio no ano seguinte, no Masters 1000 de Roma. Naquela ocasião, o alemão era o décimo sétimo do ranking, e o favoritismo estava com Murray, Nadal e Djokovic. Mas Sascha surpreendeu a todos, derrotando Milos Raonic e John Isner para chegar a final do torneio contra Novak Djokovic, vencendo o sérvio em apenas dois sets, conquistando seu primeiro título de Masters 1000.

No mesmo ano, Alexander ainda ganhou outro Masters 1000, dessa vez o de Montreal, derrotando seu ídolo de infância, Roger Federer, na final e encerrando o ano como número 4 do mundo. Em 2018 já acumula bons resultados, tendo ganhado o Masters 1000 de Madrid e chegando na final em Roma, além do título em Washington, torneio ATP 500. Ainda assim, falta a Sascha uma boa participação em um Grand Slam, tendo como melhor resultado a participação em Roland Garros deste ano, na qual chegou até as quartas de finais. O alemão tem tudo para continuar crescendo no esporte e, em breve, deverá chegar ao topo do ranking da ATP.

Alexander Zverev posa ao lado de Dominic Thiem após vencer o Masters1000 de Madrid de 2018. (Imagem: Clive Brunskill/ Getty Images)

A opinião de um especialista

Os quatro nomes citados aqui se juntam a outros nomes como Stefanos Tsitsipas, Chung Hyeon, Nick Kyrgios, Karen Khachanov e Andrey Rublev, que também podem se destacar no futuro. Mas antes que isso aconteça, parece que será preciso esperar que o tempo derrote os grandes nomes atuais, já que a nova geração ainda não conseguiu incomodar a supremacia de Federer, Nadal e Djokovic. Para Fernando Meligeni, ex-jogador e comentarista de tênis da ESPN, esses jogadores, tendo ganhado quase tudo, jogam mais por amor ao esporte do que por qualquer outra coisa.

“O que faz ele perdurar dentro do circuito é o amor que ele tem e o quanto ele vai querer treinar. Claro que vai chegar uma hora em que a perna não vai mais chegar”, afirmou o ex-tenista ao Arquibancada.

Meligeni também acredita que não há ninguém como Federer e Nadal nesta nova leva de talentos. “Eu acho que a nova geração é muito boa, só que todos têm características muito diferentes. É muito difícil que tenha um cara como Nadal e Federer, que são jogadores que, quando foram número 1, ficaram muito tempo lá”. Ele também destacou a dificuldade que é liderar o ranking por muito tempo, utilizando como exemplo Gustavo Kuerten, amigo que viu cada vez mais comprometido quando chegou ao topo, abdicando de diversos prazeres. “Isso pouca gente quer, pouca gente consegue”.

Por fim, o ex-tenista ressaltou a importância de um bom técnico para o desenvolvimento da NextGen. “Na minha visão, quando esses caras contratam um  técnico, não um técnico renomado, mas um que vai te tirar de uma zona de conforto, ele vai demonstrar que não está feliz em sem número 3 do mundo”. Um dos técnicos elogiados por Meligeni, Ivan Lendl, começou a trabalhar com Alexander Zverev no US Open, uma parceria que pode render grandes frutos ao alemão como já rendeu para outros grandes nomes, dentre eles Andy Murray, e tornar Sacha o principal nome desta geração.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *