Dentro e fora do alçapão: 55 anos do bi da Libertadores

Por João Vitor e Mariana Arrudas 

(Imagem: Beatriz Cristina e Mariana Arrudas/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

Para o Santos não tinha esse negócio de campo, estádio, tradição. A gente procurava jogar e fazer o que a gente sabia de melhor: ganhar. E isso aconteceu.” É com essa frase de José Macia, o lendário Pepe, que o Arquibancada inicia um texto cheio de memórias e orgulho para os torcedores santistas.

Há 55 anos, o coração alvinegro praiano batia mais forte. O time da baixada santista deixava o estádio Urbano Caldeira para ir até Buenos Aires, onde conquistaria seu segundo título da Copa Libertadores da América, no caldeirão de La Bombonera. Mais tarde, também se tornaria o primeiro time de futebol no mundo a ser campeão duas vezes na Copa Intercontinental de Clubes, um grande marco para a história do clube.

Essa história começou a ser escrita ainda no ano anterior. Como campeão da Libertadores de 1962, o time da Vila Belmiro conseguiu uma vaga direto nas semifinais, e o adversário foi um clube bem conhecido pelo Peixe: o Botafogo. A equipe carioca conquistou o acesso após ser vice-campeã do Campeonato Brasileiro de 62 (na época chamado de Taça Brasil). Sim, vice, já que o mesmo Santos sagrou-se campeão do nacional, após uma vitória esmagadora por 5 a 0.

O primeiro jogo da semifinal foi equilibrado, 1 a 1 no estádio do Pacaembu. A volta foi no Maracanã e, assim como na final de 62, o Santos atropelou o time de Garrincha e companhia, por 4 a 0. Pelé marcou três ainda no primeiro tempo e coube a Lima fechar o placar.

Na final, o Santos enfrentou o poderoso Boca Juniors, da Argentina. Em 4 de setembro, aconteceu o jogo de ida no Maracanã, Rio de Janeiro. Os meninos da vila venceram o time argentino por 3 a 2, tendo dois gols marcados por Coutinho e um por Lima. “A torcida carioca incentivou o Santos até o final. E o Maracanã é um campo que dá uma sensação de alívio, é bem grande. Era difícil marcar o time do Santos com a qualidade que tinha”, afirma Pepe.

Já no jogo de volta, em 11 de setembro, no La Bombonera, o “time da virada” venceu o então poderoso Boca, com o placar de 2 a 1. Os dois gols – um de Coutinho, o outro de Pelé – saíram após o primeiro tento do argentino Sanfilippo.

Para relembrar o título do Santos, o ponta-esquerda do time, Pepe, e Lima, o “coringa” da equipe, compartilharam um pouco com o Arquibancada sobre suas memórias dessa grande final:

Arquibancada: Qual foi a sensação de vencer a Libertadores na casa do time adversário, enfrentando a “catimba” da torcida argentina e a impressão que muitos tinham de que o Santos não seria suficiente para vencer o Boca de Sanfilippo?

Pepe: Nós sabíamos que a tarefa ia ser muito difícil. O Boca Juniors em La Bombonera era quase imbatível, quase: porque nós enfrentamos paradas incrivelmente difíceis e normalmente saímos vencedores. Então foi um marco histórico no Santos Futebol Clube essa conquista da Libertadores na casa deles, onde nós tínhamos toda a torcida torcendo contra o Santos, que não tinha esse número de torcedores que existe agora. Nós nos sentimos praticamente sós, enfrentando aquele bom time, com grandes jogadores. Eu nunca vi uma torcida tão fanática quanto a do Boca Juniors. Uma torcida que empurrava o time mesmo quando se estava com o placar adverso. Foi uma conquista histórica do Santos.

Lima: Foi uma sensação inimaginável, eu me lembro como se fosse hoje. Um fato que não vou esquecer nunca na minha vida é o apoio que a torcida carioca deu ao Santos. Eu tive uma felicidade incrível, não tem como explicar. Até hoje quando converso com as pessoas elas querem saber, porque foi um momento único. Eu só posso falar pra você o seguinte: Eu me senti!

A: Na época, o forte do time era o rápido toque de bola e o potencial de virar qualquer placar. O que o rival Boca Juniors fez para tentar barrar o time?

Pepe: O que o Boca fazia, principalmente quando jogava na La Bombonera e sabendo que ia enfrentar um dos melhores times do Brasil e do mundo, que era o Santos Futebol Clube, era uma marcação forte. Então cada um dos jogadores que marcavam o nosso ataque tinha uma incumbência: não deixa o Pepe jogar, não deixa o Pelé jogar, não deixa o Coutinho jogar, o Dorval ou o Mengálvio. A marcação era muito forte e apoiada por uma torcida que eu nunca vi ser tão fanática como a do Boca Juniors. Uma torcida que empurrava o time, mesmo quando estava com o placar adverso.

Lima: Eles vieram pra cima principalmente durante os primeiros 15 minutos. Eles vieram com tudo procurando definir o resultado do jogo nesses 15, 20 ou 25 minutos iniciais. Como o Santos tinha um time muito experiente, nós tivemos uma boa parte desse jogo com o domínio do Boca Juniors, mas foi um domínio estéril. Porque não foi aquele domínio que faz o resultado. Ficaram o tempo todo com a bola, tudo bem, maravilhoso! Só que quem fez o gol fomos nós. O Boca Juniors gostava de ter a posse da bola, partir pra cima e dominar o adversário, e, nos dois jogos que fizemos contra eles, conseguimos neutralizar esse tipo de jogo.

A: Algum momento em especial nos dois jogos (Maracanã e La Bombonera) te marcou?

Pepe: La Bombonera, de fato, é o campo mais difícil que existe para se jogar futebol. Primeiro que, ao que me parece e pelo que comentaram na época, eles deixaram o campo ruim de propósito para eliminar o nosso toque de bola, que era muito bom. E a marcação forte, o Boca tinha cinco, seis jogadores da seleção argentina, um time muito forte que normalmente não perdia em sua casa. Então foi uma conquista heroica do Santos, e eu classifico essa conquista como realmente uma das mais importantes na vida do nosso clube. Mas como eu falei antes, o Santos não tinha bem-bom nem coisa nenhuma: a gente ia, enfrentava polícia, jogadores, time adversário, pastores-alemães, qualquer coisa. A gente jogava sem medo nenhum e, no mais, nós tínhamos um grande time acostumado a grandes vitórias, grandes conquistas e principalmente a grandes desafios. Esse foi um desafio imenso na minha vida e na minha carreira: ganhar do Boca lá em La Bombonera.

Lima: Teve um momento especial, que não foi nem no Maracanã, foi na partida em La Bombonera. Quem não teve a oportunidade nem de ver um jogo, não imagina o que é jogar em uma Bombonera completamente lotada. Oitenta por cento, noventa por cento era torcida do Boca Juniors. E muita gente nem torcia para eles, mas, por se tratar do futebol argentino, foram ao campo e torceram para o Boca. Era uma sensação muito boa e, por incrível que pareça, o Santos se sentia sempre muito em casa quando aconteciam esses jogos. No Maracanã, La Bombonera, no estádio do River, foi assim também quando jogamos na Itália, foi assim quando jogamos contra o Benfica lá em Lisboa, o time tinha um controle emocional muito grande, fora o poderio ofensivo e coletivo, nós sabíamos o momento certo de dar a estocada final.

A: Como era jogar ao lado de Pelé e companhia?

Pepe: Jogar ao lado do rei do futebol era fantástico. E muito difícil, sabe por quê? Porque eu não sabia o que ele ia fazer, ele fazia jogadas incríveis. O Lima, um jogador aplicadíssimo, coringa, que jogava tanto de lateral como de meia – o Santos o utilizou em determinadas ocasiões em várias posições –, e o Coutinho, um centroavante fantástico. O Santos tinha o Pagão na época, mas o Coutinho com 15, 16 anos começou a aparecer bem. Era um jogador muito inteligente, um jogador que jogava de meia arriada, sem caneleira e, mesmo garoto, não temia pancada. Foi em La Bombonera, jogou muito. Quem não viu o Coutinho jogar e anos depois teve o privilégio de ver o Romário, era um estilo muito parecido.

Lima: Bem, jogar ao lado de Pelé e Coutinho é uma honra muito grande. Me faz lembrar de quando eu cheguei ao Santos em 1961. Eles já faziam parte da equipe, eu só tive a oportunidade de conhecê-los nos jogos que eu fiz pelo Clube Atlético Juventus da Mooca contra o Santos. Depois tive a felicidade de encontrá-los novamente em uma seleção paulista – na época o Campeonato Brasileiro era disputado por seleções. Aliás, foi um mês depois desse campeonato de seleções, em que eu era o reserva imediato do Zito, que fui contratado pelo Santos. Foi uma felicidade muito grande, nós ouvíamos comentários de que isso poderia acontecer, e depois eu fiquei muito contente em saber que a palavra que teve maior peso para a minha contratação foi a de José Ely de Miranda, o Zito.

A: Qual a principal diferença você observa entre a Libertadores da sua época e a atual? Qual você julga melhor de se jogar?

Pepe: A diferença era muito grande, com vantagem para o pessoal de hoje, que tem todas as garantias, tem televisão, internet, eles têm tudo. Logicamente os torcedores ficam preocupados de não aprontar nenhuma. Naquela época não havia nada disso, então a gente enfrentava realmente um time forte, não só dentro de campo, mas também com uma torcida fanática demais. Por isso que eu considero um privilégio ter participado dessas conquistas pela ponta esquerda do meu Santos Futebol Clube. Na época, nós sabíamos que jogar na Argentina ou no Uruguai era muito mais difícil do que jogar contra Real Madrid, Barcelona ou Milan, onde havia muito mais organização.

Lima: Eu acredito que a maior diferença, se é que existe alguma, é o poderio das equipes. Naquela época nós encontramos times muito mais armados, muito mais difíceis de se jogar do que são encontrados hoje. Em uma Libertadores naquela época, pegava River, Boca, San Lorenzo; do Uruguai pegava o Peñarol e o Nacional; do Chile pegava o Colo-Colo. O peso sempre foi o mesmo, só que a formação dessas equipes era mais forte do que atualmente. Era muito mais difícil, os times eram muito mais encorpados e tinham muito mais poder de virar um jogo a qualquer momento, não só dentro do seu próprio estádio, mas fora também.

Pepe não deixou de mandar um recado para a torcida santista!

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