Copa do Mundo de Futsal 2008: a Copa dos brasileiros

(Imagem: Getty Images)

O país do futebol podia muito bem ser também o país do futsal. O pentacampeão mundial nos campos é seis vezes campeão do mundo nas quadras, sendo cinco vezes em campeonatos organizados pela Fifa e duas em mundiais organizados pela FIFUSA (Federação Internacional de Futebol de Salão), entidade máxima responsável pelo esporte antes de ser administrado pela Fifa. Em 1982, na primeira dessas conquistas e primeiro mundial de futsal da história, o Brasil teve o privilégio de vencer na sua própria casa com um elenco composto de jogadores amadores.

Mas essa não foi a única Copa no país. Em 2008, com sedes no ginásio Nilson Nelson, em Brasília, e no ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, local em que ocorreu a final, o Brasil teve sua segunda chance de conquistar o título mundial em casa e não decepcionou.

Desta vez com um elenco profissionalizado, recheado de craques reconhecidos mundialmente e chegando como uma das três seleções favoritas, os comandados de PC de Oliveira, entre partidas fantásticas e emocionantes, foram buscar aquilo que era uma obsessão e ficou marcado para sempre na memória de quem ama esporte. Tudo sobre a Copa do Mundo de Futsal de 2008 você confere nesta matéria do Arquibancada.

Uma Copa dominada por brasileiros

Na última Copa do Mundo de futebol, em 2018, foi comum ver brasileiros naturalizados em outras seleções: Mário Fernandes, na Rússia, Diego Costa, Thiago e Rodrigo, na Espanha, entre outros nomes. No entanto, em 2008, a quantidade de brasileiros em outras seleções chegou a beirar o absurdo.

Só brasileiros: a Itália foi símbolo do domínio do Brasil no futsal (Imagem: Getty Images)

Só a Itália, terceira colocada, tinha todos os seus 14 selecionados brasileiros naturalizados. Espanha, EUA, Itália, Japão, Paraguai, Portugal e Rússia são outras seleções que contaram com pitadas verde e amarelas. No total, foram 38 brasileiros na disputa, o que dá mais de sete times titulares completos.  

Com isso, uma consequência esperada se concretizou. Em praticamente todos os prêmios individuais e coletivos só deu Brasil: as quatro primeiras posições foram ocupadas por seleções com brasileiros, os três melhores jogadores eleitos pela Fifa e os três artilheiros da competição foram brasileiros, com Pula, jogador da seleção russa, o principal goleador com 16 gols, sendo o único naturalizado desses seis.

Dessa mistura de nacionalidades, a seleção com apenas jogadores nascidos no seu país venceu essa competição. O Brasil não contou com nenhum naturalizado, e isso não foi nenhum problema para o time do treinador PC de Oliveira. Se o “pé de obra” brasileiro já é valorizado no futebol, no futsal é quase que um desejo cobiçado por outras seleções.

Como vinha o Brasil

Por mais que tenha sido apontada como a principal favorita, o título ficou longe de ser tranquilamente conquistado. Junto de Espanha e Itália, a seleção brasileira carregava o fardo do favoritismo e era praticamente obrigatório, na opinião popular, vencer jogando em casa, algo que demonstra a pressão que pairava sobre o time.

PC de Oliveira, treinador do Brasil em 2008 (Imagem: fotonet)

Da primeira convocação daquele ano, os goleiros Rogério (Joinville/Krona/DalPonte) e Tiago (Malwee/Jaraguá), os alas Ari e Falcão (Malwee/Jaraguá) e os pivôs Lenísio (Malwee/Jaraguá) e Valdin (Cortiana/UCS) se mantiveram até o Mundial. Praticamente metade do elenco, uma base para o time de PC de Oliveira.

E o primeiro desafio de preparação era a seleção da Líbia. Jogando na Malásia, os brasileiros tiveram bastantes dificuldades em uma partida bem parelha. Apesar da diferença de tradições, foram os detalhes que conseguiram fazer o Brasil sair com um triunfo de 3 a 2 sobre a seleção africana. Os gols foram de Ari, Mithyuê e Cabreúva.

A Copa no Brasil: voltando para casa

De volta para onde tudo começou, e agora organizada pela FIFA, a Copa do Mundo trouxe 20 seleções para uma disputa acirradíssima, com favoritismo de Brasil, Itália e Espanha. A fórmula era a seguinte: uma divisão em quatro grupos com cinco equipes. Os dois primeiros colocados de cada grupo avançavam à segunda fase, onde dividiam-se em dois grupos com quatro equipes cada. Então, os dois primeiros de cada um desses outros dois grupos iam para as semifinais e, depois, para a final.

No primeiro grupo do Brasil ficaram: Rússia, Japão, Cuba e a simpática seleção da Ilhas Salomão. Inclusive, a equipe da Oceania foi um verdadeiro saco de pancadas na competição. Levou, no total, 69 gols em quatro partidas. Contra o Brasil, perderam de 21 a 0, mas, mesmo assim, terminaram todos de bom humor e até tietando os jogadores brasileiros, como se fosse um jogo festivo. Contra a Rússia, segunda colocada, levaram um incrível 31 a 2, maior placar já registrado em mundiais, além de contar também com o recorde de maior número de gols marcados por um atleta em um mesmo jogo (Pula, com nove gols).

Na partida que prometia maior equilíbrio e valia praticamente o primeiro lugar do grupo, o Brasil não tomou conhecimento do adversário e passou por cima. Brasil e Rússia não fizeram exatamente um jogo, justamente pelo passeio da seleção brasileira. 7 a 0 e o time canarinho passava no topo do grupo com 49 gols feitos em apenas quatro jogos, além de também ter levado apenas um, da seleção do Japão.

Mata-mata: brasileiros são decisivos em todas as partidas

Nada mais justo da Copa do Mundo no Brasil ter como protagonistas, e até coadjuvantes, os próprios brasileiros. As semifinais ficaram divididas entre Brasil e Rússia e, do outro lado, o confronto entre Itália e Espanha. Três dos favoritos ainda no páreo e pelo menos um já estava garantido para a grande final. A única certeza era: qualquer que fosse a seleção para final, pelo menos um brasileiro todas tinham em seu elenco.

O primeiro confronto foi entre Brasil e Rússia, e os donos da casa não deram hipótese de vitória para os adversários. Com início arrasador, Schumacer e Falcão deixaram a seleção brasileira com dois gols de vantagem em menos de dez minutos de jogo. Mas, os russos conseguiram diminuir com o artilheiro brasileiro naturalizado Pula, principal jogador da seleção russa na competição.

Pula viria a terminar a competição como artilheiro, com 16 gols, um a mais que Falcão (Imagem: André Durão/Globoesporte)

Vinícius fez o terceiro gol um minuto após o desconto da Rússia e a situação ficou favorável para a seleção canária. Mesmo assim, não havia desistência do outro lado: Khamadiev diminuiu com 25 minutos de bola rolando e os russos ainda tinham 15 minutos para tentar sair com alguma coisa. Porém, o sonho acabou a três minutos do fim, quando Gabriel fez o quarto tento brasileiro e colocou seu país a um passo de conquistar mais um mundial em sua casa.

Itália e Espanha: rivalidade posta a prova em partida histórica

Quem viu esse jogo, não esquece. Talvez o principal jogo depois da final, Itália e Espanha realmente fizeram um jogo memorável. Não faltou em qualidade, não faltou em emoção, não faltou em polêmica. O vencedor saiu, literalmente, no último lance da partida, mas há quem discorde se foi justo esse último gol.

A Espanha não ficou atrás em nenhum momento do placar. Primeiro, saiu na frente com Daniel, brasileiro naturalizado. A Itália seguiu buscando até conseguir empatar com Foglia. E no tempo regulamentar foi isso: um gol para cada lado e excelentes atuações dos goleiros de ambas as equipes.

Na prorrogação, a história se repetiu. A Espanha largou na frente com mais um gol com pitada brasileira. Fernando Gonçalves acertou um belo chute pela direita e colocou os espanhóis novamente na frente. Os italianos não desistiram, foram para o goleiro-linha e foi o próprio que garantiu o empate. Saad Assis acertou um bico no canto inferior e praticamente encaminhava o jogo para os pênaltis. Entretanto, não foi o que aconteceu.

Adriano Foglia, de herói a vilão em questão de segundos (Imagem: Antonio Scorza/Getty Images)

A oito segundos do fim, a Espanha encaixou um contra-ataque letal. Três contra dois. A defesa da Itália voltava desesperada para evitar o gol que certamente os colocariam para fora da final. Kike desceu pelo corredor esquerdo e cruzou rasteiro para onde estava Adriano Foglia, da Itália. Primeiro, a bola bateu em seus pés e foi na trave. Mas, o que era sorte se tornou em um azar imensurável no momento em que a bola voltou novamente. Sem equilíbrio, não conseguiu evitar que o pior acontecesse. Nos últimos três milésimos do segundo tempo da prorrogação, gol contra.

Os italianos até reclamaram, mas a FIFA reiterou sua posição posteriormente e declarou correta a marcação da arbitragem em validar o tento. Os espanhóis estavam na final.

Brasil x Espanha: a primeira final de Copa do Mundo de Futsal a ser decidida nos pênaltis

Duas histórias incríveis se encontravam na final, mas apenas uma poderia ser concluída. Uma era da Espanha, que venceu a Copa do Mundo de 2000, 2004 e buscava seu terceiro mundial consecutivo, algo feito apenas pelo Brasil. No outro lado, a seleção verde e amarela queria colocar uma geração de ouro no patamar mais alto possível pela primeira vez, e ainda em sua própria casa.

O quinteto titular de ambas as equipes se repetiu. O Brasil, que costumava colocar sua grande estrela Falcão ao decorrer das partidas, iniciou com Tiago, Gabriel, Schumacher, Lenísio e Marquinho. Os espanhóis, com o goleiro Luis Amado, Javi Eseverri, o capitão Javi Rodriguez, Kike e Marcelo.

A partida começou tensa. Os dois lados jogavam com muita cautela e não se expunham muito para buscar investidas ofensivas mais agudas. O primeiro lance de grande perigo veio só depois da entrada de Falcão, aos 16 minutos da primeira etapa. O melhor do mundo quase faz uma pintura de calcanhar, mas parou nas mãos de Amado. No primeiro tempo, 0 a 0.

Se faltaram gols na primeira metade da reedição da final de 2000, na segunda não tem do que reclamar. Logo com cinco minutos de segundo tempo, Marcinho cobrou escanteio fechado. A bola resvalou no rosto do defensor espanhol Borja e foi morrer dentro das redes. No entanto, a explosão de alegria foi efêmera.

Primeiro, o craque Falcão passou a sentir dores no joelho esquerdo. Até conseguiu continuar uma parte da partida assim, mas não aguentou o que viria a descobrir ser uma lesão no ligamento colateral. E a situação do Brasil ainda foi de mal a pior com o gol de Torras, aos 8 minutos da segunda etapa, empatando para os espanhóis.

O que parecia se tornar um cenário favorável para os espanhóis voltou para o controle brasileiro. Faltando três minutos para o fim, escanteio cobrado e Lenísio finalizou para a defesa de Amado. No rebote, Vinícius, que havia perdido dois gols anteriormente, fez o 2 a 1 para o Brasil e comemorou muito.

A pressão espanhola nos minutos finais era inevitável, e os comandados de PC de Oliveira não conseguiram aguentar. Com apenas um minuto restante, a estratégia de goleiro-linha da Espanha deu resultado. Fernandão conseguiu receber a bola livre na ponta esquerda e cruzou rasteiro na área. Tiago se atrapalhou com Gabriel e nenhum dos dois conseguiu afastar a bola. Melhor para Álvaro, que ficou com o rebote e colocou o empate no placar, levando assim o jogo para as penalidades.

O herói da decisão estava no banco de reservas e entrou no final da prorrogação para fazer história (Imagem: Fábio Motta/Estadão)

Mesmo sendo uma unanimidade como um dos melhores goleiros do mundo, e ainda eleito, depois da partida, o melhor goleiro da competição, Tiago não jogou a decisão de pênaltis. Franklin, arqueiro na época com 37 anos e indo para seu segundo mundial na carreira, trazia experiência consigo e usaria a reputação de pegador de penalidades máximas ao seu favor.

Marquinho abriu as cobranças para o Brasil. Fez o gol e viu toda tensão do Maracanãzinho se tornar uma comemoração de alívio. Kike empatou para os espanhóis. Wilde e Ortiz fizeram seus gols também para Brasil e Espanha respectivamente, e foi em Torras que brilhou pela primeira vez a estrela do goleiro brasileiro.

Atuando pela primeira vez no mundial, Franklin acertou o lado da batida do espanhol para colocar o Brasil na frente na disputa. O camisa 10, Lenísio, converteu a dele e Álvaro também. E quando tudo ficou nos pés de Ari para decidir em favor da seleção brasileira, o ala desperdiçou e viu Amado adiar por mais uma cobrança o tento do título.

A Copa do Mundo dos brasileiros pertencia ao Brasil, não podia ser diferente. O desfecho foi o melhor possível para registrar tal rótulo. Frente a frente, no último lance de todo campeonato, dois deles para decidir para quem iria levar o título da competição mais cobiçada do futsal mundial. Coube a Franklin dizer não ao hispano-brasileiro Marcelo e garantir o título defendendo a última cobrança da Espanha na final. Estádio empolvorece, os jogadores vibram e o Brasil é campeão.

O mundo reverencia Falcão

A reverência vem de gerações. Muitos podem até não conhecer tanto o futsal brasileiro, mas qualquer amante de esportes associa diretamente a modalidade ao nome de Falcão. Um jogador de habilidade única, de muito espetáculo, usa e abusa de seu talento nas quadras de todo mundo.

(Imagem: Gazeta Press)

Eleito até hoje quatro vezes o melhor jogador do mundo da modalidade, o jogador que associou futebol arte ao seu nome sentia que precisava de conquistas de relevância em 2008 para tirar um fardo que carregava. “Uma coisa posso garantir a vocês: tirei 10 toneladas das minhas costas”, disse ao UOL Esporte. “Sofri dez anos com esse peso. Ah, Falcão é craque, mas…sempre tinha o mas. Hoje ele não existe mais”.

Num total de cinco participações em Copas do Mundo com a seleção brasileira, Falcão ganhou duas, sendo a primeira em 2008 e a segunda em 2012, nas quais foi peça fundamental na campanha. Em 2004 e em 2008, foi eleito o melhor jogador da competição, tendo em 2004 conseguido também a artilharia. Através dessas conquistas e dos momentos incríveis protagonizados por ele, Falcão conseguiu deixar um marco nos mundiais de futsal, demonstrando toda a sua genialidade.

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