Mais que Futebol reúne movimentos contra a modernização do esporte

Por João Vitor e Tiago Medeiros

O bar Arquibancada Botões Clássicos traz a perda das raizes do futebol ao centro do debate (Imagem: Tiago Medeiros/Jornalismo Júnior)

Uma tarde de domingo ensolarada, ocasião perfeita para que os amantes de futebol possam aproveitar e discutir sobre esse assunto que tanto gostam. Foi o que o evento coberto pelo Arquibancada proporcionou aos fãs do esporte.

Nesse último dia 21 de outubro, ocorreu na região da Pompéia, em São Paulo, o evento “Mais que Futebol”, no Arquibancada Botões Clássicos. O bar, que possui várias mesas para a prática de futebol de botão e um caráter altamente nostálgico, é um prato cheio para os entusiastas do futebol com inúmeras camisas e faixas enfeitando o local.

A presença de televisores e a disponibilidade de comidas características de porta de estádio, além da sempre aclamada cerveja, ajuda na criação de um ambiente muito agradável e aconchegante para acompanhar e debater sobre os jogos.

A decoração futebolística é muito bem trabalhada no local (Imagem: João Vitor/Jornalismo Júnior)

Durante a execução do evento, a disposição do lugar foi um pouco modificada para acomodar os expositores que vendiam seus produtos, todos com a temática do futebol presente. Além disso, o tópico central do evento – a resistência ao futebol moderno – também fazia-se presente nas mesas..

Diferente do que ouvimos falar nas transmissões televisivas, o “futebol moderno” abordado no evento não se trata exatamente do estilo de jogo das equipes:  mais tático, goleiro sabendo jogar com os pés, menos chutões. O tema vai muito mais a fundo, abordando questões extracampo.

Uma das principais críticas ao chamado futebol moderno é a elitização do esporte. Atualmente, os antigos estádios estão dando lugar às modernas arenas e, com isso os ingressos ficam mais caros. Isso impossibilita que o torcedor “da massa” vá aos jogos, tornando o futebol um espetáculo para poucos.

Entre os expositores presentes essa opinião foi quase unânime, exceto por Thiago Cassis, editor e idealizador da revista “Pelota”. Para ele, a modernização é inevitável e o aumento no preço é consequência dessa melhoria.

A argumentação de que essa elitização não é algo benéfico e que altera totalmente o futebol de décadas anteriores também parte da ideia de que o ambiente dos estádios está sendo modificado. Principalmente nos jogos realizados no estado de São Paulo, bandeiras com mastro, grandes instrumentos musicais e sinalizadores, entre outros aspectos que faziam parte da festa das torcidas antigamente, estão sendo barrados de entrar nas arenas.

Com isso, os integrantes da mobilização contra o futebol moderno afirmam que se perde grande parte da magia do espetáculo, e o brilho que se fazia presente em seus olhos quando iam ao estádio quando menores está, cada vez mais, sendo diminuído.

Na visão dos responsáveis pela marca Camisa 14, que disponibiliza camisetas em estilo retrô, relembrando grandes nomes clássicos do futebol, o esporte está virando um grande negócio. Os empresários, hoje em dia, acabam por tomar posse de jogadores e clubes, e, dessa forma, comandam a modalidade a fim de que esta forneça cada vez mais lucro, deixando o amor à camisa de lado. Esse, aliás, seria um intuito da marca: remeter à época em que o dinheiro não influenciava tanto o futebol.

Outro expositor que apoia o ideal contra o futebol moderno é a página Casual Football, respaldada pelo comentarista da ESPN Brasil, Mauro Cezar Pereira. Os membros do grupo tratam de explicar bem qual o intuito de impacto dos produtos disponibilizados por eles (camisetas, bonés, adesivos e panfletos), além das postagens feitas.

O combate à modificação das essências do futebol é um dos principais temas disseminados pela página. A elitização dos moldes do esporte, além da mudança do público que consome o futebol brasileiro, é algo visto como altamente maléfico e é combatido pelo grupo.

Além disso, a página trata de assuntos que juntam futebol com política – algo que por muitas vezes é temido pelos futebolistas – e também divulgam ações de grupos ligados ao esporte, como as torcidas organizadas, que ajudam a tornar os estádios e o ambiente futebolístico um lugar mais agradável, como mobilizações antifascistas e contra a homofobia.

Mesa com produtos expostos pela Casual Football (Imagem: João Vitor/Jornalismo Júnior)

As idealizadoras da página de Instagram Minas no Estádio também estavam presentes no evento e trataram de expor suas camisetas, que possuem um conceito inovador. A partir da criatividade da criadora do grupo, Lili, há a confecção de camisetas com apenas as cores dos clubes da capital paulista, para que as mulheres possam ir aos estádios sem receio de serem importunadas por estarem com a camisa do seu time de coração.

Essa ideia dialoga muito com os preceitos da página e de suas idealizadoras, que visam empoderar mulheres para irem aos estádios sozinhas, sem qualquer tipo de medo. Esses valores, contou-nos Lili, vieram à tona para serem disseminados e discutidos motivados por sua própria experiência e de outras membros em estádios.

Em seu caso, por ser palmeirense e morar no interior paulista, ela era obrigada a ir ao antigo Parque Antártica – atual Allianz Parque – sozinha, e infelizmente acabou passando por situações desagradáveis em alguns jogos. Sendo assim, Lili busca através da página, fortalecer o ímpeto feminino de ida aos estádios, para que cada vez mais possamos ver mulheres nas arquibancadas sem qualquer tipo de restrição.

Em síntese, o evento reuniu os pequenos comerciantes para exporem suas marcas. Além da exposição, os vendedores também puderam criar uma rede de contato entre eles – já que muitos não se conheciam –, dessa forma expandindo suas marcas.

Para os visitantes, foi a oportunidade perfeita para curtir uma tarde com a família, tomar uma cerveja com os amigos e conversar sobre o velho futebol raiz, em um ambiente que exala esse tema, com pessoas que entendem e passam uma visão diferenciada e politizada sobre o assunto.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *